Adeus Duda Guennes (1937-2011)

30 de setembro 2011 - 15:28

Jornalista brasileiro radicado em Portugal desde 1974, assinava a coluna mais antiga da imprensa de Lisboa – "Meu Brasil brasileiro", no jornal A Bola. Escritor, crítico de teatro, era sobretudo um grande contador de histórias.

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Duda Guennes: escrita solta, documentada e bem humorada

O jornalista brasileiro Eduardo Guennes Tavares de Lima faleceu na madrugada desta sexta-feira em Lisboa, vítima de cancro. Duda Guennes, como era conhecido – e era o seu nome profissional – , chegou a Portugal em Setembro de 1974 e por cá ficou. A sua escrita solta, documentada e bem humorada chamou desde logo a atenção na imprensa portuguesa, então ainda muito dominada por um estilo de jornalismo mais formal.

Desde 1980 assinava a mais antiga coluna da imprensa de Lisboa, "Meu Brasil Brasileiro", do jornal A Bola, a última das quais foi publicada dia 26 e intitulava-se “Caderno de encargos”. Abordava as promessas feitas pelo Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. “Entre as mais vistosas, delirantes ou simplesmente irresponsáveis, o jornalista Augusto Nunes seleccionou 20. Mas eu, por questões de espaço, publico apenas 10, para já”, escreveu.

Duda Guennes nasceu a 21 de Julho de 1937 no Recife, Pernambuco (Brasil), era filho de um coronel e chegou a estudar num colégio de Jesuítas. Gostava de dizer que, mais que brasileiro, era pernambucano. Mas era sem dúvida também lisboeta. Casou em Portugal e deixou uma filha de 28 anos.

Foi desde sempre membro dos corpos gerentes da Casa do Brasil, tendo-a representado em inúmeras ocasiões. Esta associação de imigrante brasileiros e seus amigos divulgou uma nota dizendo que “para a Casa do Brasil é a perda de um amigo de sempre, um espírito brasileiro inspirador, um exemplo de boa disposição. A presença de Duda era a garantia de um "papo" sempre agradável, divertido e enriquecedor”. E conclui: “Duda fica connosco, na história da Casa do Brasil e na presença indelével do Brasil nesta Lisboa que tanto amava”.

Uma crónica de Duda Guennes:

Portugal x Brasil: vingança terrível

A primeira e única vez que Brasil e Portugal se encontraram em mundiais foi pela Copa de 66 (Liverpool 19-7), que os Magriços venceram por 3 x 1. Depois da derrota que afastou a canarinha da Copa da Inglaterra, os jornalistas brasileiros, incrédulos, curtiam a maior fossa na sala de imprensa, tentando encontrar explicação e justificativa para tão surpreendente vexame. Faziam uma verdadeira autópsia da derrota.

As causas eram, segundo uns: 1 - A falta de táctica e excesso de treinamento individual, donde resultaram as contusões. 2 - Falta de alma, de espírito de retaliação, na hora da verdade. Falta de vontade de vencer. 3 - Menosprezo ao adversário e tabela mal examinada. A Hungria, por exemplo, guardou seus melhores jogadores para o jogo contra o Brasil, pois sabia que perder para Portugal pouco significava. 4 - Para outros, a causa foi a falta de time titular. Pela primeira vez, ninguém, desde o garoto que junta figurinhas dos seus ídolos até João Saldanha, ninguém, no Brasil, no mundo, no estrangeiro e no resto da geografia jamais soube qual o time titular (nos três jogos realizados, o Brasil utilizou 21 dos 22 jogadores convocados, só não jogou Edu, ponta-esquerda do Santos). E isso após três meses de treinamento(?). 5 - Aceitar o jogo do adversário. Contra a Hungria aceitou-se o futebol veloz, ágil, pelas extremas. Contra Portugal aceitou-se o não querer jogar dos portugueses, a sua violência, a sua «cera».

O consenso, porém, foi estabelecido: Acima de tudo e simplesmente, o Brasil perdera porque faltou futebol à selecção.

Enquanto os brasileiros discutiam na sala de imprensa – cada um com o seu diagnóstico - levantou-se da secretária na qual escrevia as suas notas, o jornalista português Carlos Pinhão, de A Bola. Com passos firmes, bem determinado, Pinhão foi até à cabina telefónica para passar sua matéria. No final, Pinhão sobranceiro, olhando em seu redor, ditou em voz alta e bem soletrado, para que todos os brasileiros ouvissem, o título da matéria, que foi este: «A TERRÍVEL VINGANÇA DA BOLA QUADRADA».

Da crónica “Seleção portuguesa: lembranças”, publicada no Sabiá, da Casa do Brasil, publicada em Maio de 2009