Os bancos europeus atacam a zona euro

16 de novembro 2011 - 0:07

Estão a livrar-se à força da dívida soberana dos países da zona euro considerados “em perigo”, arriscando-se a precipitar a moeda única no abismo. Por Jean Quatremer, Coulisses de Bruxelles, UE, blog do Libération.fr

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Bancos fazem um "aperto de crédito"

O pior cenário está prestes a ocorrer: os bancos europeus estão a livrar-se à força da dívida soberana dos países da zona euro considerados “em perigo”, arriscando-se a precipitar a moeda única no abismo. Este movimento, que começou no final de julho, acelera-se e atinge agora a dívida da França, que já não é considerada um ativo totalmente seguro. É o que explica a subida acelerada das taxas de juro italianas e a distância cada vez maior entre as obrigações alemãs e as francesas. Especulação? “Os fundos especulativos não passam de atores periféricos de um movimento inquietante, porque é geral: estamos diante da saída em massa dos bancos do mercado das dívidas soberanas”, analisa um economista de um banco francês que pediu o anonimato.

Assim, o BNP-Paribas reduziu a sua exposição às dívidas da zona euro em perto de 21%, desfazendo-se de 10 mil milhões de euros durante o último trimestre, dos quais 8,3 mil milhões de dívidas italianas. O Crédit Agricole foi um pouco mais longe, diminuindo a sua exposição em 27%: num mês, vendeu mais de mil milhões de bónus do tesouro italiano e 850 milhões de dívidas espanholas. Desde o dia 1 de julho, o banco fez passar a sua exposição de 10,717 mil milhões nos cinco países periféricos para 7,285 mil milhões. Da mesma forma, o Societé Générale vendeu 650 milhões de dívidas italianas, 400 milhões de dívidas espanholas, etc. Nem todos estes movimentos são vendas: refletem também a inscrição das obrigações detidas pelo seu valor de mercado, o que permitirá recapitalizar em melhores condições os estabelecimentos bancários

Este salve-se quem puder generalizado foi lançado pelos bancos alemães. Assim, o Deutsche Bank, no fim do mês de julho, livrou-se de 8 mil milhões de dívidas italianas, o que desencadeou a descida aos infernos da península. Porque este movimento autoalimenta-se: cada venda no mercado secundário faz baixar o valor das obrigações do Estado (e portanto aumentar as taxas de juros). O que empurra os outros atores dos mercados a segui-los. E, de aproximação em aproximação, cresce o pânico, todos a quererem desembaraçar-se de ativos considerados frágeis, mesmo que isso seja totalmente irracional: “os mercados estão a perder a razão”, desolam-se as pessoas no círculo do presidente francês, Nicolas Sarkozy, que tratam agora menos bem a Itália, “a oitava economia do mundo”, que a Tunísia ou o Egito...

O pior é que esta desconfiança em relação à zona euro é alimentada no essencial por atores do mercado europeu, bancos, seguradoras, fundos de pensão, etc., e não por estabelecimentos não-europeus. “É Cronos1 que devora os seus próprios filhos”, suspira um analista de banco. Não se trata apenas de um movimento de renacionalização do mercado das dívidas soberanas que se tinha grandemente internacionalizado com o euro. Com efeito, parece que os bancos se desembaraçam também da sua dívida doméstica: o BNP-Paribas vendeu também mais de mil milhões de dívidas francesas. Os outros bancos, por sua vez, não “comunicam” sobre este assunto.

Os Estados vão ter dificuldades de trazer à razão os mercados que eles mesmos assustaram, não cumprindo os seus compromissos. Desde o início da crise grega, em finais de 2009, a zona euro tinha prometido que não ia reestruturar a dívida grega. Em contrapartida, os Estados pediram aos seus bancos que não vendessem os títulos gregos. Mas, em 21 de julho último, a zona euro decidiu uma redução “voluntária” de 21% em média da dívida grega, redução elevada a 50% em 27 de outubro. Esta decisão desferiu um golpe mortal à credibilidade dos Estados, porque mais ninguém pode garantir que os outros países não sejam um dia tratados da mesma forma. Por isso, em vez de assumir os riscos, vendem e, ao fazê-lo, precipita-se a crise da qual se tem medo.

A decisão de recapitalizar os bancos, tomada em 27 de outubro sob a pressão dos mercados americanos que suspeitam do euro, acentuou este movimento. Os Estados, com efeito, decidiram obrigá-los a aumentar os seus fundos próprios “duros” (capital, reservas, dividendos não distribuídos) para 9% do seu balanço, contra os 5% atuais. Em vez de apelar aos mercados e portanto diluir a sua estrutura acionista, escolheram desembaraçar-se dos ativos considerados mais frágeis, na ocorrência as dívidas públicas: apesar de tudo, se os obrigam a recapitalizar-se, é porque emprestaram aos Estados da zona euro... que lhes permite, de passagem, reduzir o tamanho do seu balanço e portanto reduzir o aumento de fundos próprios, o que lhes permitirá continuar a distribuir bónus e dividendos.

“Se isto se confirmar, não vamos tolerá-lo”, enervam-se no Eliseu (sede do governo francês): “pedimos aos bancos que não cedessem ativos domésticos e que não reduzissem o acesso ao crédito na zona euro”. Ora, segundo um economista de uma agência de notação, “assistimos a uma clara retirada do financiamento da economia pelos bancos em vários países da zona euro.” Claramente, uma recusa generalizada de emprestar às empresas e aos lares, quer dizer, um “aperto de crédito”. Se acrescentarmos a isto a crise de liquidez que se desenha, com os bancos a recusarem-se mais uma vez a emprestarem dinheiro entre eles, e o afastamento dos bancos do mercado das dívidas soberanas, estamos na via direta de uma depressão de grande amplitude.

“Se os bancos não fizerem o jogo, podemos fazer uma recapitalização forçada”, ameaça uma pessoa próxima do Presidente da República. Dito de outra forma, uma tomada de participação direta do Estado no capital dos bancos. A ameaça, vinda de um governo de direita, não tem falta de sal.

14/11/2011

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net.

1Divindade da mitologia grega que comia os filhos quando nasciam.