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Obrigada, João

Teve intervenção política por inteiro até ao fim. Perguntou, sugeriu, alertou. Discutimos tudo o que ia acontecendo, nenhum tema deixou de o ocupar.

Quando conheci o João Semedo, ele era o rosto da denúncia do gangsterismo financeiro do BPN. O país conhecia horrorizado o assalto financeiro perpetrado pela elite cavaquista e o João não deixava pedra sobre pedra. Ponderado, exato, determinado.

O João que passava os dias em comissão parlamentar de inquérito era o mesmo que passava os fins de semana no Porto a dirigir campanha, dar-nos força, distribuir tarefas, fazer propostas, inventar caminhos novos, juntar gente. Uma energia inesgotável e aquele sorriso ternurento, mesmo quando confessava estar “estoirado”.

A política, esta coisa de tomar em mãos a responsabilidade coletiva de desenhar futuro, de disputar relação de forças para construir caminhos novos, é o que contava para ele. Queria fazer, transformar, não se contentava com palavras ocas. E o João foi incansável nessa tarefa de fazer. Juntou gente e construiu pontes.

Quando coordenamos o Bloco em conjunto, logo no primeiro dia após a Convenção em que fomos eleitos, reunimo-nos e o João disse-me: agora temos de decidir como vai ser isto depois de nós. E assim foi. Antes da Convenção já tínhamos passado horas a “pensar sobre isto”, depois passámos a pensar sobre isto agora e o que vai ser a seguir. Passámos momentos difíceis e partilhamos decisões ainda mais difíceis. Mas fizemos os dois, mesmo quando não concordamos em todos os detalhes, e não sei se teria sido possível partilhar aquele caminho com mais alguém. O João não só teve a generosidade de se colocar numa situação quase impossível como também a enorme disciplina de saber que o partido é mais do que qualquer um de nós e que a nossa responsabilidade é muito maior do que a resposta à nossa circunstância. A sua política não era do autocontentamento, da tomada de posição, do discurso. Ele construía e era forte e grande na vontade de abrir portas, de fazer caminho.

O João respondeu pelo presente e pelo futuro. Defendeu um Serviço Nacional de Saúde centrado nos utentes e capaz de responder pela dignidade nos momentos de maior vulnerabilidade. Pela sua mão passou a ser possível ter companhia quando se recorre às urgências, conhecer e exigir o cumprimento de tempos de espera no acesso à saúde, saber o preço dos medicamentos, optar pelos genéricos, levar a medicação necessária para casa depois da alta médica. Defendeu o direito das mulheres ao aborto legal e seguro e o alargamento do acesso às técnicas de procriação médica assistida, bateu-se contra todas as discriminações e por um SNS que fosse garante de igualdade e de avanços. Devemos-lhe o Testamento Vital e o caminho que nos trará, mais cedo do que tarde, a despenalização da eutanásia.

Quando as causas fraturantes ainda não tinham nome, já o João quebrava rotinas e preconceitos para garantir direitos. Como médico, nos anos 90, trabalhou com toxicodependentes e um pouco mais tarde, já a dirigir o Hospital Joaquim Urbano, inovou no tratamento do VIH, da SIDA e das hepatites.

Antes disso, antes mesmo de eu nascer, já tinha apoiado as vítimas das cheias de 67, construído movimento estudantil, combatido a ditadura. Foi militante comunista, e já depois do 25 de abril participou na alfabetização de adultos, fundou o FITEI e o Sindicato dos Médicos do Norte. Foi diretor da Cooperativa Árvore, que o recebeu na despedida desta semana. Construiu o Estado Social na intervenção política e como médico. Nunca despiu nenhuma das suas condições: médico de profissão, ativista político de convicção. Em qualquer dos casos, a cuidar agora e a cuidar do futuro. A cuidar de quem está vulnerável, na ação política e em cada encontro da vida.

Para o João a vulnerabilidade nunca foi fraqueza, mas condição de ser humano. Não conheço muitas pessoas que amparem ombro a ombro quem está mais vulnerável. O João era assim. Andou sempre de braço dado. Parece-me que será isto a fraternidade.

Não foi preciso estar doente para o João se colocar na posição de quem está nessa condição de especial vulnerabilidade. E talvez por isso nunca escondeu a sua doença. Nem estar doente o paralisou.

No último ano, já depois da notícia de que o cancro tinha regressado e que tudo seria mais difícil, escreveu a proposta de Lei de Bases da Saúde que publicou com António Arnaut e foi motor do movimento pela despenalização da eutanásia. Juntou gente, correu o país em sessões públicas, fez livros. Nada o podia calar e ele queria deixar o trabalho feito, as batalhas planeadas, a vontade forte.

Teve intervenção política por inteiro até ao fim. Perguntou, sugeriu, alertou. Discutimos tudo o que ia acontecendo, nenhum tema deixou de o ocupar. Por bicuda que fosse a questão, se “pensássemos sobre isso” haveríamos de encontrar uma saída. Foi sempre assim desde que nos conhecemos e nunca deixamos de pensar os dois sobre o que se passava dentro e fora do país, dentro e fora do Bloco.

Quando já não havia esperança de boas notícias sobre a sua saúde, deixou de falar disso e eu também. Era a única questão em que por muito que “pensássemos sobre isso” não chegaríamos a lado nenhum. Mas continuamos a conversar sobre tudo o resto. Quando o João já estava muito cansado, preocupava-se em garantir que eu não estava. Gostava das visitas, mas eu que me poupasse e que voltasse a casa a tempo de jantar com as miúdas. Fui-lhe garantindo que sim. Só não consegui preparar-me para esta coisa estranha de o João não estar, logo agora que eu estou mesmo a precisar de “pensar sobre isto” de ele não estar.

Artigo publicado no “Expresso” de 21 de julho de 2018

Sobre o/a autor(a)

Coordenadora do Bloco de Esquerda. Deputada. Atriz.
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Resto dossier

João Semedo (1951-2018) - Foto de Paulete Matos

João Semedo (1951-2018)

Neste dossier, lembramos João Semedo, antigo coordenador do Bloco de Esquerda, através de artigos, opiniões, vídeos, fotogalerias que o esquerda.net publicou desde o seu falecimento, em 17 de julho passado.

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Amigos, camaradas e familiares do antigo coordenador do Bloco vão lembrá-lo numa homenagem pública, este sábado a partir das 16h30 no Teatro São Luiz.

João Semedo: discursos marcantes

Relembramos neste podcast alguns momentos marcantes de João Semedo no Bloco.

Continuamos a caminhar, João

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Homenagem a João Semedo (podcast)

Podes ouvir aqui todas as intervenções na sessão de homenagem a João Semedo, que decorreu a 19 de julho no Teatro Rivoli, no Porto.

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As tarefas de João Semedo

As duas últimas batalhas - uma nova lei do SNS e a morte assistida - foram as mais difíceis e não conseguiu ganhá-las. Mas não as perdeu. Deixou sementes.

João

O generoso João garantiu que seríamos muitos mais do que pensávamos a ter essa consciência e prontos para assumir essa responsabilidade.

Obrigada, João

Teve intervenção política por inteiro até ao fim. Perguntou, sugeriu, alertou. Discutimos tudo o que ia acontecendo, nenhum tema deixou de o ocupar.

Centenas de pessoas encheram o Rivoli nesta homenagem póstuma a João Semedo.

João Semedo: Rivoli a transbordar para a homenagem

Foi de casa cheia que o Rivoli homenageou João Semedo. Amigos, família, camaradas, centenas de pessoas juntaram-se ali para esta despedida em jeito de homenagem.

Homenagem a João Semedo

Veja aqui a sessão de homenagem a João Semedo realizada esta quinta feira no Rivoli, no Porto.

O braço do João

A morte do João Semedo surpreendeu-me, de tal forma, que ainda me custa a acreditar que se foi e que não vou receber mais aquelas mensagens encorajadoras nos maus momentos e de felicitações nos bons.

João Semedo

O João percebeu que o cancro o tinha vencido, mas nunca desistiu de puxar pela vida.

Intervenções, testemunhos, poesia e música para homenagear João Semedo

A sessão de homenagem ao ex-coordenador do Bloco realizar-se-á esta quinta-feira, 19 de julho, no Rivoli, no Porto, às 21h. A par de intervenções e testemunhos de amigos e companheiros de lutas de João Semedo, a iniciativa contará ainda com momentos de música e poesia.

"João Semedo foi um cidadão exemplarmente empenhado e um grande parlamentar"

José Manuel Pureza pronuncia o voto de pesar pelo falecimento de João Semedo que foi aprovado por unanimidade pela Assembleia da República.

AR aprova voto de pesar pelo falecimento de João Semedo

No voto de pesar aprovado por unanimidade, a Assembleia da República manifesta a sua profunda consternação pela morte do cidadão exemplarmente empenhado e do grande parlamentar que foi João Semedo.

Centenas despediram-se de João Semedo com aplausos

Familiares, políticos de vários quadrantes e muitos cidadãos prestaram a última homenagem ao ex-coordenador do Bloco esta quarta-feira no Porto.

João Semedo

Como recordo Mário Soares

Neste artigo, publicado em janeiro de 2017, João Semedo escreveu sobre Mário Soares, destacou diferentes facetas e realçou: “do que não duvido é da sua consagração pela História como fundador da democracia portuguesa e da segunda República”.

Aquele em quem confiávamos

Quando se fizer a História das conquistas de uma democracia avançada em Portugal, o nome do João Semedo estará lá, como referência maior.

Catarina: João Semedo ficará “na história dos avanços da nossa democracia”

Catarina Martins destacou a generosidade que o ex-coordenador bloquista trazia às causas que abraçou e que fazem parte da história da democracia portuguesa.

Reações ao falecimento de João Semedo

O esquerda.net publica as notas de condolência e as reações à morte do antigo coordenador bloquista.

Vídeo: o João no Bloco

João Semedo em campanhas e iniciativas do Bloco de Esquerda. Fotos de Paulete Matos.

"Tive uma vida muito intensa, o que me enche de felicidade e boa disposição"

Antes de ser obrigado a abandonar por razões de saúde a candidatura à Câmara do Porto, João Semedo deu esta entrevista para um vídeo de campanha em alguns dos locais da cidade que mais marcaram a sua vida.

João Semedo (1951-2018)

Militante comunista contra a ditadura, defendeu a renovação do PCP e encontrou no Bloco de Esquerda o espaço de intervenção capaz de mudar a política portuguesa. “Tive a vida que escolhi, a vida que quis, não tenho nada de que me arrependa no que foi importante”, disse João Semedo na última grande entrevista que concedeu.