Ana Jorge: Problema das urgências não se resolve sem melhoria das condições do trabalho médico

14 de junho 2022 - 15:56

A antiga ministra da Saúde afirma que o problema se vai agravar porque o número de especialistas que se estão a formar por ano é reduzido e não será suficiente para preencher as saídas e as reformas.

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Ana Jorge. Foto Paula Nunes.

Em entrevista à RTP2 sobre o encerramento das urgências de Obstetrícia em vários hospitais do país este fim de semana, a antiga ministra da Saúde Ana Jorge reconheceu que embora os anos de pandemia tenham agravado a situação de cansaço e de saída de profissionais dos serviços públicos de saúde, esta situação "era previsível, até pela evidência que só existem 28 novos médicos, recém especialistas" formados este ano.

"O número de especialistas que se estão a formar por ano é reduzido e não será suficiente para preencher as saídas e as reformas", alerta Ana Jorge.

Quanto ao plano de contingência anunciado pela ministra Marta Temido, Ana Jorge recorda que esta "não é a primeira vez que os hospitais se organizam em rede por região, também nas urgências obstétricas, no período de férias em que há menos pessoas disponíveis para fazer as escalas".

Para a antiga ministra, o problema é que "não são contratados médicos e estão a fazer-se pagamentos a tarefeiros ou através de empresas de trabalho temporário, o que fica mais oneroso" para os cofres públicos. A agravar a situação, "muitos médicos não querem fazer contratos de trabalho e preferem ser tarefeiros, porque recebem mais".

"Esta situação existe desde os anos 2000, quando começaram a aparecer as empresas de contratação médica. Quando era diretora de serviço não conseguia perceber como é que eu tinha profissionais responsáveis a receber metade do que recebia o tarefeiro", recordou Ana Jorge, acrescentando que o problema nao terá solução enquanto "nada for feito para melhorar as condições do trabalho médico, mas também dos enfermeiros, criando condições para que os médicos queiram voltar a trabalhar no serviço público e tenham as suas competências reconhecidas".