António Borges: "Não tenho de prestar contas ao eleitorado"

09 de fevereiro 2013 - 16:02

Em entrevista ao DN, o consultor do Governo trata Miguel Relvas e Álvaro Santos Pereira como seus "clientes" e volta a defender a privatização da Caixa Geral de Depósitos. Quanto ao corte de 4 mil milhões no Estado Social, diz que é uma "questão acessória", dado que "nós já fizemos cortes muito maiores nestes dois últimos anos". E remata dizendo que o problema da dívida "desapareceu".

PARTILHAR
António Borges diz que o problema da dívida "desapareceu", apesar de aumentar 2,3 milhões a cada dia que passa. Foto Tiago Petinga/Lusa

Considerado o "13º ministro" de Passos Coelho, Borges rejeita o título e diz ao Diário de Notícias que já passou o tempo em que tinha ambições políticas, na altura em que fez parte da equipa de Manuela Ferreira Leite. Agora cobra 300 mil euros anuais para organizar a sua equipa de consultores que trabalham com o Governo do PSD e do CDS e "presta consultas só naquilo que o governo pede". O âmbito das consultas "tem quatro dimensões: o financiamento da economia e o sector financeiro; as privatizações; as PPP e a quarta é a reestruturação do sector empresarial do Estado", explica António Borges.



Quanto à polémica surgida com as suas declarações acerca da reação dos empresários às mudanças na Taxa Social Única, apelidando-os de "ignorantes", Borges responde com o seu estatuto diferente do dos responsáveis políticos: "um político quando está a falar tem sempre uma carga política completamente diferente do que a que tem uma pessoa independente como eu, que não tenho responsabilidades políticas nem tenho de prestar contas perante o eleitorado", diz o consultor vindo da Goldman Sachs e do FMI.



O dossiê da RTP, em que se viu envolvido ao anunciar o modelo de privatização num telejornal para depois ver o Governo recuar, também é tema da entrevista. Borges revela que foi o Governo a tomar a iniciativa durante a mesma tarde e ele só esclareceu os contornos da decisão à noite num canal televisivo. Questionado sobre a gestão do dossiê pelo ministro Miguel Relvas, o consultor poupa nas palavras: "Não vou fazer comentários sobre as pessoas que são minhas clientes. O ministro Relvas tem um dossiê difícil, que geriu da forma que lhe pareceu a melhor", aponta.     





Em frente com as privatizações

 

António Borges fala na entrevista de outros dossiês, relacionados com as privatizações. Volta a defender a privatização da Caixa Geral de Depósitos, que "está nas intenções do governo, no programa do governo, no acordo entre os dois partidos". "O timing exato para se fazer isso tem de ser bem escolhido", acrescenta o consultor.



Quanto aos CTT, diz que já "começaram a aparecer interessados" no potencial de desenvolvimento da empresa no que respeita aos serviços financeiros, já que "as pessoas cada vez mandam menos correio". Borges vê um futuro radioso para os Correios se alguém "pegar naquela belíssima infraestrutura, naquela boa organização que até tem alguma tecnologia muito cobiçada por esse mundo fora, e acrescentar todo um conjunto de oportunidades de negócio que vão tornar viáveis coisas que de outro modo teriam de ser encerradas".



Já no que respeita à CP Carga, Borges aponta também a entrega da empresa a privados como caminho, mas quando questionado sobre quem fica com a dívida de 3500 milhões, responde que "isso não lhe posso dizer. Aliás, é um tema que não se começou a tratar".

 



Cortes no Estado Social são "questão acessória"



Com o país sob tutela da troika a pretexto da incapacidade de financiar o pagamento da dívida pública, o consultor volta a surpreender, não dando importância ao facto da dívida ter disparado desde o início do mandato de Passos Coelho a um ritmo de 2,3 milhões de euros por dia. "Isso é um problema que desapareceu. Hoje toda a gente quer comprar a dívida pública portuguesa", exclama António Borges, que agora menoriza o problema que esteve no centro da campanha eleitoral que deu a vitória ao PSD: "Dívidas de 120% já existiram muitas vezes em muitos países do mundo", diz agora o consultor.



"A crise é sempre um momento de grande limpeza, em que há muita ineficiência que desaparece, isso já é absolutamente visível na economia portuguesa", acredita Borges, garantindo que o corte anunciado de 4 mil milhões de euros no Estado Social é "uma questão acessória" e "um corte verdadeiramente marginal". "Nós já fizemos cortes muito maiores nestes dois últimos anos", acrescenta.



O menu de cortes encomendado pelo Governo ao FMI é bem aceite por António Borges por "apresentar opções que dão para cortar 15 mil milhões e muita panóplia para escolha". O consultor diz-se "muito mais confiante" do que o Governo, FMI, União Europeia e Banco de Portugal quanto às previsões do crescimento para os próximos anos. "Estou convencido de que há condições para que o país este ano já esteja a crescer e que 2014 seja um ano de crescimento forte", que quantifica como uma "aceleração para uma tendência que pode ser 3%, 4%, 5% a prazo". Acreditando que na conjuntura mundial de hoje se pode repetir o cenário de 1983-85, em que "tivemos um programa duro de ajustamento e depois tivemos crescimento rapidíssimo, Borges deixa a pergunta: "Porque é que não somos capazes de fazer o mesmo? O país hoje é muito melhor do que era em 1985".