Antigo líder da NATO furou embargo de armas à ditadura portuguesa

09 de janeiro 2023 - 10:29

Uma investigação aos arquivos agora revelados dos serviços secretos neerlandeses diz que Joseph Luns, um dos principais políticos do país na segunda metade do século XX, recebeu dinheiro em comissões nos negócios de venda de armas ao regime de Salazar.

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Joseph Luns. Foto publicada no site da NATO.

No mês passado ficaram disponíveis ao público dezenas de milhares de ficheiros do Serviço Nacional de Segurança neerlandês (BVD) sobre alvos de investigação entre 1948 e 1998. O jornal digital NRC investigou os documentos que trazem à luz do dia uma imagem muito diferente de um dos políticos de referência do país no pós-guerra e que em 1969 foi escolhido numa sondagem como o homem vivo mais popular do país, à frente do apresentador de TV mais famoso. Joseph Luns chefiou a diplomacia neerlandesa nas décadas de 1950 e 1960 e o seu estatuto de decano da diplomacia mundial ajudou na escolha para liderar a NATO em 1971, ocupando o cargo até 1984. Detém ainda hoje os recordes de longevidade na liderança da NATO, na chefia da diplomacia neerlandesa e enquanto governante dos Países Baixos desde a II Guerra Mundial.

Da mobília roubada aos documentos comprometedores

Segundo o jornal, foi justamente no dia de tomada de posse à frente da aliança militar que o secretário-geral adjunto do Ministério dos Negócios Estrangeiros chamou os chefes de segurança e de pessoal do Ministério para tratar de "um assunto muito delicado". O responsável pela gestão dos edifícios tinha sido apanhado a roubar mobílias da casa oficial do ex-ministro em Haia, entretanto vaga. O problema, diz o memorando secreto, é que o funcionário apanhado ameaçava revelar que Joseph Luns também tinha roubado mobiliário da casa antes de se mudar para uma villa em Bruxelas. A mobília em falta foi mais tarde encontrada - e devolvida - numa casa de férias da família de Luns e o caso foi abafado.

Entre os ficheiros marcados como confidenciais ou "top secret" agora revelados sobre as atividades do então ministro, o caso da mobília parece de somenos. Estão lá as referências às suas amantes ou as idas a uma casa de massagens em Haia conhecida pelas práticas sadomasoquistas. Mas estão também referências a documentos encontrados na antiga residência oficial de Luns sobre "transações e entregas de armas por parte de negociantes de armamento a Portugal. Os documentos mostram que Luns esteve envolvido nessas transações e recebeu dinheiro por isso", nas palavras do diretor adjunto do departamento de segurança do Ministério dos Negócios Estrangeiros que denunciou o caso à BVD. A preocupação na altura era impedir que esses documentos chegassem à imprensa e arruinassem a carreira de Luns.

O embargo de armas a Portugal tinha sido imposto em 1963 pelo Conselho de Segurança da ONU e hoje sabe-se que os Países Baixos já tinham enviado em 1961 mais de 1.500 espingardas AR-10 usadas pelos comandos portugueses em Angola e Moçambique. O próprio Luns, com um passado de espionagem em Lisboa durante a II Guerra Mundial, entre 1941 e 1943, era criticado no seu pais por supostas simpatias com as ditaduras portuguesa e espanhola e teve de responder sobre o caso no Parlamento em 1969, afirmando na altura que "nada disso foi provado". No ano seguinte, voltou a afirmar que o seu país respeitava o embargo de armas à ditadura portuguesa.

O mesmo informador denunciou na altura que era voz corrente que Luns teria milhões escondidos numa conta da Suíça e que isso era do conhecimento do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que abafou o caso da mesma forma que fez com a mobília roubada. A chefe de segurança que visitou a residência oficial após a saída de Luns detalhou ao chefe da BVD que viu caixas de documentos contendo pastas com extratos bancários de bancos nos EUA, Bélgica, Suíça, França e Inglaterra, com depósitos chorudos a serem feitos todos os meses. Noutra caixa estava a correspondência com o seu amigo Arnoud van Thiel Coovels, que vivia em Portugal, com várias referências às transferências de dinheiro e frases como "o carregamento chegou a Moçambique", ou "ouvi em Beirute que o carregamento chegou a Angola".

Um caso abafado pelo chefe do governo

Segundo o jornal, uma peça relevante do caso é o facto de nem o responsável máximo pela BVD nem o primeiro-ministro ou o ministro dos Negócios Estrangeiros - os dois responsáveis políticos com quem tratou diretamente do caso - terem informado as autoridades judiciais das suspeitas de corrupção, ou mesmo o ministro do Interior. E quando o chefe de governo Barend Biesheuvel pede para falar diretamente com a chefe de segurança que viu os documentos, esta diz ter regressado à casa três semanas depois, mas já não os encontrou. Chamado a dar explicações em Haia aos dois governantes no início de novembro de 1971, Luns nega todas as acusações. E a investigação ficou por aqui, não sem que antes um indignado Luns tenha escrito uma carta de Bruxelas a pedir a acusação dos funcionários que o denunciaram. Na resposta, o seu sucessor à frente do Ministério dos Negócios Estrangeiros e colega de partido, Norbert Schmelzer, responde que não pretende agitar mais as águas de um caso que podia ter efeitos contraproducentes para a imagem do novo secretário-geral da NATO.

Em janeiro de 1972, o De Telegraaf noticia que o antigo ministro Luns teria uma conta bancária aberta em Nova Iorque, mas sem lhe juntar quaisquer suspeitas de corrupção ou de envolvimento no tráfico de armas. Mas os desmentidos bastaram para que a popularidade de Joseph Luns permanecesse inabalável até deixar o cargo em 1984. Não regressou à política neerlandesa e continuou a viver em Bruxelas até à sua morte em 2002.