China: Os protestos operários na Foxconn e o papel dos sindicatos

24 de dezembro 2022 - 15:38

O China Labour Bulletin descobriu que a ACFTU, sindicato oficial da China, e os seus ramos locais estiveram ausentes das lutas dos trabalhadores da fábrica de iPhones e não negociaram condições de trabalho mais seguras. Sem um sindicato que os represente as suas vozes continuarão a ser marginalizadas em favor do capital.

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Trabalhadoras da Foxconn em 2016. Foto de iphonedigital/Flickr.
Trabalhadoras da Foxconn em 2016. Foto de iphonedigital/Flickr.

Já passou mais de um mês, desde que os primeiros casos de Covid-19 atingiram a fábrica da iPhone da Foxconn em Zhengzhou, província de Henan, o que levou a direção a bloquear os trabalhadores, mantendo a produção num sistema de circuito fechado. Os trabalhadores foram obrigados a fazer testes PCR diários e foram impedidos de sair das instalações da fábrica.

As precárias condições de vida e de trabalho dos quase 300.000 trabalhadores das instalações de Zhengzhou, a maior base mundial de produção de iPhone, levaram milhares a abandonar a fábrica a pé. A crise em curso tem sido um desastre para o fornecedor da Apple em termos de relações públicas e produção, expondo o mau tratamento dos trabalhadores e comprometendo o fornecimento antes das férias de fim de ano.

Mas a crise poderia ter sido evitada ou atenuada se o sindicato tivesse intervindo atempadamente para representar os trabalhadores que manifestaram fortes preocupações de que a produção estava a ser colocada à frente da segurança do emprego, e se o governo tivesse equilibrado os direitos dos trabalhadores com as prioridades de prevenção de pandemias.

Os trabalhadores escapam do sistema de produção de circuito fechado

Os trabalhadores exigiram ação muito antes da empresa ou o governo estarem dispostos a fazê-lo. Num vídeo que circulou na Internet, e que desde então foi removido, um trabalhador descreveu a precariedade do sistema de circuito fechado e a falta de informação que conduzia a rumores galopantes e medos crescentes:

“Pensei que vir aqui seria um novo começo, mas não esperava que fosse como saltar para uma grande fogueira. Agora, estou aqui no meio do fogo e da água. Não importa como lutamos, não vale a pena.”

Embora os problemas de produção da Foxconn tenham começado em meados de Outubro, os vídeos virais da revolta dos trabalhadores começaram a circular nas redes sociais, no final desse mês. Depois dos trabalhadores denunciarem condições de trabalho insuportáveis, má gestão do controlo do vírus e receios sobre o seu bem-estar básico, a Foxconn deixou-os decidir se queriam sair.

As restrições ao movimento da política “Covid Zero” da China e a súbita decisão da empresa levaram os trabalhadores a fugir das instalações a pé. Este êxodo em massa de milhares de trabalhadores migrantes não se tinha voltado a ver desde que a cidade de Pequim expulsou da cidade milhares de pessoas, apelidadas de “populações do extremo inferior”, em 2017.

Os trabalhadores que escolheram ficar nas instalações da Foxconn foram persuadidos pelos bónus fortes da Foxconn, enquanto que os trabalhadores que regressaram a casa arriscavam não encontrar trabalho depois de saor.

Quem é responsável por arriscar a vida e saúde dos trabalhadores?

Em meados de Outubro, a Foxconn assegurou ao mundo que a produção de iPhones estava normalizada, apesar da deteção de casos de Covid-19 na fábrica e do bloqueio resultante.

A empresa não publicou quantos casos positivos do vírus foram detetados, mas refutou as alegações de que 20.000 trabalhadores tinham contraído o vírus. A Foxconn respondeu ao incidente prometendo melhorar as condições de trabalho, permitindo que os trabalhadores abandonassem a fábrica e providenciando algumas formas de transporte.

A posição oficial do governo chinês culpa os trabalhadores, especificamente um camionista com Covid-19, que entrou na capital provincial de Henan a 4 de Outubro. Em resposta ao aumento de casos em Zhengzhou, a cidade declarou um encerramento, o que também é suscetível de afetar os objetivos de produção, uma vez que as entregas passaram a ser irregulares.

E desde então, a Apple confirmou que os carregamentos de iPhones podem ser atrasados e culpa especificamente a política, nomeadamente a política de “Covid Zero” da China em Zhengzhou.

Os trabalhadores identificaram uma série de problemas, ao nível da fábrica. Numa conta agora eliminada, um trabalhador da Foxconn diz que era novo na fábrica de Zhengzhou e que trabalhava na secção de investigação e desenvolvimento. Alertou que não só a direção fez muito pouco e muito tarde, mas que a empresa estava também a encobrir a situação, com testes suspeitos e má gestão do código de saúde, colocando a produção à frente da segurança no trabalho:

“Sabemos que a produção vem sempre em primeiro lugar aos olhos da Foxconn mas queremos realmente levar uma vida normal. Não queremos estar preocupados e assustados o dia todo. Só queremos comer uma refeição normal, tirar as nossas máscaras e dormir, olhar para o mundo exterior e reconquistar a beleza da vida.”

Os sindicatos de empresa da Foxconn e a ACFTU

A organização dos trabalhadores é uma solução para resolver a tempo as suas queixas e evitar uma crise laboral. Um blogueiro disse que os trabalhadores não podiam ser responsabilizados por abandonarem a fábrica em massa, pois o incidente mostrou que não havia confiança entre a gerência e os trabalhadores.

“O ponto mais importante é que os trabalhadores não têm o direito de saber e, além disso, não têm nenhuma organização que os possa realmente ajudar a defender os seus direitos… Ainda que haja [um sindicato], penso que é apenas um elemento decorativo e não desempenha o seu papel.”

Na China, todas as organizações de trabalhadores devem estar filiadas na Federação de Sindicatos de China (ACFTU). A Foxconn, de facto, tem um sindicato de empresas filiado na ACFTU.

Já em 2006, o governo local ordenou a uma fábrica da Foxconn, em Shenzhen, que estabelecesse um sindicato de empresa, após uma série de reportagens mediáticas sobre as condições deploráveis na fábrica, que na altura estava a fabricar iPods. A fábrica de Zhengzhou também teve mais de uma década para construir pontes entre os trabalhadores e a direção, desde a formação do seu sindicato empresarial, em 2011.

O China Labour Bulletin (CLB) levou a cabo uma investigação própria sobre a resposta da ACFTU à crise da Zhengzhou Foxconn. Contactámos tanto o sindicato municipal de Zhengzhou quanto o sindicato municipal da vizinha Xinzheng, onde se encontra a fábrica da Foxconn, para nos informarmos sobre o papel da ACFTU e as suas medidas.

Os funcionários sindicais admitiram que não tinham ajudado os trabalhadores que fugiram da fábrica e que tinham estado principalmente a ajudar o governo. A funcionária de Xinzheng com quem conseguimos falar estava em serviço de prevenção da pandemia, ordenado pelas autoridades locais. Perguntámos se o sindicato tinha negociado em nome dos trabalhadores com a direção da empresa e ela respondeu:

“Neste momento, não tenho uma compreensão total, estou na comunidade a fazer prevenção de pandemias. Não posso responder à tua pergunta porque não estou familiarizada com a situação. Quando a epidemia eclodiu aqui, o governo designou qual o nosso papel para o combate ao vírus.”

O funcionário do sindicato municipal de Zhengzhou que contactámos foi menos recetivo e até negou que os funcionários do sindicato estivessem envolvidos no trabalho de prevenção de pandemias.

O diretor executivo do China Labour Bulletin, Han Dongfang, instou o sindicato a agir para representar as necessidades dos trabalhadores e defender os seus direitos. Quando os funcionários sindicais se mobilizam para estarem “na linha da frente” da pandemia, abdicam do seu papel de representantes dos trabalhadores:

“Em qualquer empresa, a função do sindicato é representar os direitos dos trabalhadores. Isto é que é “estar na linha da frente”. Em vez disso, o sindicato está a rever os códigos de saúde e a gerir o fluxo de equipamentos e fornecimentos. É como se o sindicato estivesse preparado para chorar o dia inteiro, sem realmente saber quem morreu. Esta é a questão chave e existencial para os sindicatos na China de hoje.”

A Foxconn renova a força de trabalho… e acontece o mesmo

Os trabalhadores recém-contratados protestam contra as mesmas más condições de trabalho no fornecedor Apple que levaram milhares a fugir da fábrica no mês passado. A resposta adequada às necessidades dos trabalhadores da linha da frente é do interesse financeiro e de reputação de todas as partes interessadas.

Depois de milhares de trabalhadores terem fugido, no mês passado, de condições de insegurança pandémica na fábrica da Foxconn em Zhengzhou, província de Henan, o maior fornecedor de iPhones da Apple assistiu a contínuos protestos dos trabalhadores perturbarem novamente a produção.

A fuga dos trabalhadores e os recentes protestos, ambos ocorridos durante a época alta de produção, foram uma solução perdedora para todas as partes envolvidas: os trabalhadores, a Foxconn, a Apple e as autoridades chinesas. Após a primeira vaga de trabalhadores ter fugido, em Outubro, a Apple anunciou que a produção do iPhone 14 seria adiada e o governo local de Henan juntou-se à Foxconn no lançamento de uma campanha de recrutamento, em Novembro, para compensar a falta de mão-de-obra.

Aos trabalhadores recém-contratados foram oferecidos bónus, mas as suas expetativas na fábrica não foram satisfeitas. A 23 de Novembro, começaram a protestar tanto contra os salários como contra as condições de saúde e segurança, no âmbito do sistema de produção em circuito fechado, uma vez que os casos Covid-19 aumentaram dentro da fábrica e da cidade de Zhengzhou.

A 24 de Novembro, a Foxconn emitiu uma declaração culpando o problema salarial de ser um “erro técnico”. No mesmo dia, a Foxconn acabou por oferecer aos trabalhadores recém-contratados pacotes de despedimento de 10.000 yuan cada um para partirem, com medo dos protestos crescentes.

O conflito entre o capital e o trabalho na Foxconn foi mal gerido e o resultado tem sido um desastre contínuo para todos. O ciclo ilógico do trabalho ultrapassa completamente as soluções fundamentais necessárias para as relações pacíficas entre a gestão e as questões da cadeia de abastecimento: ouvir as vozes dos trabalhadores, negociar com os trabalhadores soluções laborais razoáveis e responsáveis e melhorar as condições de trabalho a contento de todas as partes.

Na realidade, as partes interessadas concordam: os trabalhadores querem trabalhar e ser pagos, a Foxconn precisa de cumprir os objetivos de produção, o governo quer uma economia estável, e a Apple quer cumprir os compromissos com os seus consumidores em todo o mundo. E os consumidores também esperam cada vez mais que os produtos sejam feitos em condições humanas e com salários decentes.

A situação em desenvolvimento revela também que, independentemente dos salários e subsídios oferecidos, os trabalhadores têm um limite sobre condições de trabalho seguras e decentes. Em vez de abordar os problemas com testes e confinamento no sistema de gestão em circuito fechado após a primeira ronda de trabalhadores, os novos trabalhadores que foram contratados foram confrontados com sistemas de prevenção de pandemia igualmente inadequados.

Não pode ser ignorada a ausência do sindicato oficial da China nas lutas dos trabalhadores. A ACFTU é responsável, em particular ao abrigo da Lei de Segurança no Trabalho recentemente alterada, por organizar os trabalhadores da linha da frente para identificar e lidar com os riscos para a saúde e segurança antes da ocorrência de acidentes.

A 27 de Outubro, o China Labour Bulletin contactou os sindicatos locais relevantes, em Zhengzhou, e descobriu que eles estavam na comunidade a rever os códigos de saúde dos residentes, em vez de organizar os trabalhadores da Foxconn para negociar condições de trabalho mais seguras. Isto é uma abdicação do seu mandato e o sindicato deve ser responsabilizado.

O status quo é que os trabalhadores na China não têm poder coletivo de negociar com a direção para resolver tais problemas e não se pode esperar que a direção do local de trabalho das empresas atue contra os seus interesses financeiros e alerte as empresas e marcas para ajudar a resolver os problemas. Só os trabalhadores da linha da frente sabem de que tipo de ambiente de trabalho e tratamento necessitam e sem um sindicato que compreenda e represente os seus interesses, as suas vozes continuarão a ser marginalizadas em favor do capital.

Se o governo e os sindicatos tomassem a iniciativa de resolver os problemas fundamentais na sua origem, os conflitos futuros, que inevitavelmente ocorrerão, poderiam ser resolvidos através da negociação coletiva.


Texto do China Labour Bulletin que é um grupo de defesa dos direitos dos trabalhadores na China que foi fundando em 1994 em Hong Kong por Han Dongfang e Robin Munro. Han Dongfang, operário ferroviário, foi o principal organizador durante as jornadas de Tienanmen da Federação Autónoma de Trabalhadores de Pequim. A sua história foi recolhida numa longa entrevista publicada na New Left Review.

Publicado originalmente no China Labour Bulletin. Republicado pelo Sin Permiso.

Traduzido por António José André para o Esquerda.net.