Emigração forçada

13 de janeiro 2014 - 16:57

Os neoliberais sabem bem que a emigração é forçada pela sua austeridade. Mas fingem que não, porque o seu objectivo é mais vasto, aplica-se a quem está dentro ou fora do país. Nesta empresa em que vão transformando Portugal, só interessam os cidadãos rentáveis. Artigo de Sandra Monteiro, publicado na edição portuguesa do Le Monde Diplomatique.

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"Os neoliberais sabem bem que a emigração é forçada pela sua austeridade".

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São já mais de 121 mil os portugueses que emigraram durante a crise da austeridade, ultrapassando, em 2012, um máximo histórico que só havia sido alcançado em 1966, numa década condenada pelos horrores da ditadura, da guerra e da fome. Uma emigração desta dimensão, ainda por cima numa conjuntura de diminuição dos fluxos imigratórios e de saldo demográfico negativo, tem consequências gravíssimas para a sustentabilidade do país. Realidade temida ou concretizada, passou a fazer parte do quotidiano da maioria da população. Os aeroportos e estações de comboio, mas também as casas das cidades e aldeias, ou as praias e os campos por onde passeiam famílias e amigos, tornaram-se lugares estranhos de dor, amor e raiva. Fala-se de quem parte e de quem fica; cala-se a saudade que já se sente e os receios de que não corra bem. Nunca é fácil encontrar o equilíbrio certo entre exprimir a falta do abraço, da presença, e dar alento aos que se enchem de coragem e partem para onde possam ter futuro, concretizar sonhos e projectos.

Convivemos com esta realidade todo o ano, porque se parte a qualquer momento e se chega, tantas vezes, pelo calendário dos preços mais baixos do mercado das viagens. Mas, para quem é possível, o fim e o início do ano, à volta das festas que reúnem famílias e amigos, constituem picos de reencontros e despedidas. Ora, foi justamente este o período escolhido pela presidência da República para lançar uma operação de lavagem da emigração, escondendo as suas tragédias por baixo das roupagens da «juventude talentosa», da «nova diáspora» e do «exercício de lugares de destaque» nos países de emigração. Assim vestida, glamorosa e chique, a tragédia já estava decente para se sentar à mesa do Natal. Só faltou acusar quem emigra forçado de emigrar abaixo das suas possibilidades …

A operação, com grande impacto em muita comunicação social, foi organizada em torno do lançamento, a 23 de Dezembro, do Conselho da Diáspora Portuguesa, criado por iniciativa de Aníbal Cavaco Silva e na presença de Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e José António Durão Barroso. O presidente da República expôs a narrativa neoliberal sobre a emigração, aliás em perfeita sintonia com as políticas relativas à imigração, como a que agora outorga títulos de residência a estrangeiros que invistam 1 milhão de euros na economia local (ver na edição de Janeiro o artigo de Benoît Bréville).

O objectivo deste Conselho é simples: mercantilizar a emigração. Mas não toda. Só o emigrante que «rende», isto é, o jovem, muito qualificado, de excelência, talentoso, competitivo e cosmopolita. O discurso lança um apelo este o nicho de emigração: vistam a camisola da marca Portugal, melhorem a imagem externa do país e favoreçam os investimentos. Como afirmou Cavaco Silva, «além da ligação afectiva», empenhem-se em «projetar Portugal no estrangeiro pela positiva», para «contribuir para corrigir alguma desinformação que existe sobre o nosso país» e «ajudar a melhorar a credibilidade», criando «condições para o investimento no país por parte de investidores estrangeiros», para o «crescimento económico em Portugal e para o aumento do emprego» [1].

Com o tempo, estudos aprofundados darão a conhecer as características dos mais recentes fluxos migratórios. Mas os dados já existentes mostram o quanto esta narrativa neoliberal não adere à realidade. A «nova diáspora» tem muitas características da velhíssima emigração: na esmagadora maioria, não é uma escolha, é forçada pelo desemprego, pela precariedade e por baixos salários; não abrange maioritariamente pessoas muito qualificadas, mas pessoas com formação média e baixa (nisto reproduz a situação do país: o atraso de décadas na formação superior, ainda das mais baixas da União Europeia, e as imensas melhorias dessas taxas mais recentemente, permitindo falar pela primeira vez numa «fuga de cérebros) [2]. A «nova diáspora» pode ter como característica marcante abranger gerações mais novas, mas nem por isso poupa gerações mais velhas. O desemprego, a precariedade, os baixos salários e a crescente desprotecção social atravessam as gerações e o território, as cidades e os campos, o litoral e o interior – só distinguem as classes sociais.

A narrativa neoliberal sobre a emigração da austeridade tem traços ideológicos que vêm de longe. A tónica é sempre colocada na liberdade e nas escolhas, quando os contextos de acção dos cidadãos e as políticas que lhes subjazem são a própria negação das condições materiais e substantivas para a autonomia e as escolhas livres. A cegueira voluntária que reduz a emigração a jovens diplomados, bem-sucedidos e potencialmente rentáveis para o país (dito, sem rir, pelos mesmos que negam o ensino superior como um direito universal e gratuito, dizendo ser um investimento das famílias em si próprias), não é apenas uma forma de criar falsos conflitos entre gerações e de remeter para responsabilidades individuais os infortúnios de vidas que na verdade, estão a ser desbaratadas por enquadramentos políticos e institucionais com origem no país e na União Europeia.

O que a «nova diáspora» tem de novo e positivo (mais pessoas com formações superiores, gerações mais habituadas ao contacto externo e mais apoiada em redes internacionais, mais acesso a tecnologias que encurtam distâncias, mais cidadãos apetrechados para não desistirem dos seus sonhos) foi muito construído, depois do 25 de Abril, com a oposição do neoliberalismo. O que a «nova diáspora» tem de velho e revelho são as desigualdades económicas, sociais e territoriais que a democracia não resolveu e um país com debilidades estruturais (produtivas, redistributivas) que a crise financeira e as respostas austeritárias, no quadro da União Europeia e do euro, só vieram agravar.

Os neoliberais sabem bem que a emigração é forçada pela sua austeridade. Mas fingem que não, porque o seu objectivo é mais vasto, aplica-se a quem está dentro ou fora do país. Nesta empresa em que vão transformando Portugal, só interessam os cidadãos rentáveis. Aumentar a exploração do trabalho – cada vez mais mercantilizado e desligado dos direitos que os poderes públicos deviam proteger, porque o trabalho é um meio de aceder a uma vida digna –, faz parte de um projecto que, internamente, usa os poderes públicos para transferir recursos dos cidadãos para a esfera do privado. Forçados a emigrar, esses cidadãos geram recursos noutros países e, compreensivelmente, sentem-se menos afectos aos poderes públicos do país que os abandonou à sua sorte. É então que Cavaco Silva vem lembrar que o afastamento em relação ao público, ao comum, não deve ser feito em benefício da «ligação afectiva» – pressupõe-se que à família, aos amigos, talvez mesmo aos pastéis de nata e ao clube do coração – mas da «credibilidade» e do «investimento» na marca Portugal… e até do «aumento do emprego» no país. A austeridade não é só promotora de desigualdades e anti-democrática. É moralmente repugnante.

Artigo publicado na edição de janeiro da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique.