A Fosun, sociedade chinesa de capital de risco que o governo português escolheu na privatização da Caixa Seguros, pode ter o rating rebaixado pela agência de notação Moody's. A agência considera que o valor da compra de 80% de todo o negócio de seguros da Caixa Geral de Depósitos, mil milhões de euros, "excede as capacidades de caixa e de geração de recursos da Fosun", pelo que é de esperar que o grupo chinês "precise de se financiar externamente ou de alienar alguns investimentos, ou ambos". Assim, a notação da Fosun ficou, a partir desta segunda-feira, em observação para possível rebaixamento. Atualmente, o rating da Fosun é Ba3, o que significa, segundo os critérios da Moody's, que a sua "qualidade de crédito é questionável."
Fosun passa a controlar 30% do mercado de seguros em Portugal
O governo publicou esta segunda-feira em Diário da República a resolução do Conselho de Ministros que oficializou a venda do negócio de seguros da CGD à Fosun International.
Até à data da celebração do contrato, a empresa chinesa terá de pagar 100 milhões de euros e de prestar garantias bancárias em relação aos 900 milhões remanescentes.
A Fosun passará assim a controlar 80% da Fidelidade (que existe desde 1808), da Multicare e da Cares. A Caixa Seguros, agora vendida, é a líder em Portugal deste setor, com cerca de 30% de cota de mercado. O governo deu preferência à Fosun em detrimento de outra proposta, a do grupo norte-americano Apollo, alegando que os chineses apresentaram “melhores condições financeiras, qualidade e adequabilidade do projeto”.
Ferreira Leite pede explicações
Mas a ex-líder do PSD Manuela Ferreira Leite discorda totalmente desta avaliação, alegando que a Fosun não tem experiência no setor e o seu rating é classificado como "lixo" por agências de notação financeira.
"Foi vendido um terço do sistema segurador nacional. Espero que haja uma explicação ao país, primeiro, do motivo porque foi vendido e, em segundo, em que condições foi vendido porque não é claro", disse à TVI 24 na última quinta-feira.
Ferreira Leite recordou que a confiança é fundamental para o sistema financeiro funcionar perfeitamente. Ora o grupo chinês, diz, “tem uma experiência em seguros muitíssimo limitada, a carteira de tarefas que desempenham respeitante a seguros é de um montante muito limitado, ou seja, não tem experiência em seguros". Mas o pior é mesmo o rating: “de acordo com algumas agências de notação, está classificada como 'lixo' e, portanto, é preciso haver alguma explicação para que nós nos tranquilizemos quanto a isso".
A Fosun ganhou a atenção dos média internacionais por ter comprado, em outubro, a torre do Chase Manhattan de Nova York por 725 milhões de dólares, a maior compra de um edifício feita por uma empresa nos EUA. Meses antes, tinha comprado o famoso grupo francês Club Mediterranée, na área da hotelaria.
O conglomerado chinês é o maior grupo privado do país, e foi fundado em 1992. Tem presença nas indústrias farmacêutica, aço, minérios, vendas a retalho, serviços e outras. A sua entrada no ramo dos seguros é recente, tendo uma parceria com a empresa norte-americana Prudential Financial Inc. e operando a Peak Reinsurance em Hong Kong.
O seu presidente, Guo Guangchang, é o 21ª maior bilionário chinês e o 521ª do mundo, segundo a lista da Forbes, com uma fortuna de 2700 milhões de dólares.
“Consultor local”
Segundo o jornal China Daily, a Fosun estava originalmente interessada em negócios em Espanha, mas um consultor local terá proposto que encarasse a possibilidade de negócios em Portugal. O jornal não disse quem seria esse consultor, no entanto, a empresa conta com um parceiro que conhece muito bem Portugal: o grupo Carlyle.
Em 2010, a Fosun e o Carlyle criaram em parceria um fundo de investimento para empresas asiáticas de crescimento rápido, um ano depois terem investido conjuntamente na empresa chinesa Guangdong Yashili Group Co. Sobre a parceria com o Carlyle, Guo Guangchang disse acreditar que “a experiência da Fosun na China e a excelente equipe global do Carlyle podem criar sinergias que irão finalmente traduzir-se em performances incríveis”.
Recorde-se que fizeram parte dos quadros do Carlyle ou tiveram ligações estreitas o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Martins da Cruz e o secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro Carlos Moedas.