Há um outro número que não o do resultado desportivo a reter do jogo França-Marrocos das meias finais do campeonato do mundo de futebol, o do número de detidos em França. O Ministério do Interior francês deu conta esta quinta-feira de 266 detenções, 167 das quais na região parisiense devido a distúrbios.
38 destas pessoas estavam num grupo abertamente de extrema-direita, 15 das quais identificadas anteriormente pelo Ministério do Interior como ameaça à segurança nacional, e foram detetadas nas proximidades dos Campos Elísios, tendo sido detidos por posse de armas proibidas e preparação para cometer atos violentos. Na sua posse foram encontradas várias armas brancas, granadas de gás lacrimogéneo e bombas de fumo, um cassetete telescópico, caneleiras, balaclavas de camuflagem, entre outros itens que indiciam que estariam organizados para cometer agressões.
Estes elementos pertencem a vários pequenos grupos de extrema-direita como o Groupe Union Défense, que se auto-dissolveu mas parece estar de volta, os Zouaves Paris e o Bastion Social, grupos que continuaram o seu legado, e a Génération Identitaire. Todos estes dissolvidos oficialmente por decretos governamentais devido às suas práticas violentas.
Também em Lyon, Montpellier e Nice houve ações concertadas da extrema-direita. Segundo uma fonte da autarquia que prestou declarações à AFP, em Lyon “um grupo de jovens de extrema-direita aproximou-se dos apoiantes reunidos na praça Bellecour. Houve uma rixa e a polícia interveio rapidamente para repelir o grupo e segui-lo”, dois dos participantes do grupo de extrema-direita foram detidos. Imagens da revista Lyon Mag mostram a “expedição punitiva” organizada por estes grupos.
#Lyon : expédition punitive de l’extrême droite après la qualification de la #France en finale de la #FIFAWorldCup. Des individus cagoulés cherchent à en découdre @lyonmag pic.twitter.com/RxNLKRHVnw
— Lyon Mag (@lyonmag) December 14, 2022
À esquerda denunciam-se “ratonnades” organizadas. A expressão vem da palavra “ratinho” com a qual eram designadas as pessoas provenientes do Magrebe. Tornou-se a seguir sinónimo das expedições violentas racistas cometidas contra estas comunidades em França. Mathilde Panot, líder do grupo parlamentar da França Insubmissa, declarou ao Public Sénat que lhe foram chegando informações de vários locais “daquilo a que se poderiam chamar ratonnades contra os apoiantes da equipa marroquina”, manifestando-se “muito inquieta” por “os grupusculos de extrema-direita” poderem agir “com toda a impunidade”.
O secretário geral do Partido Comunista Francês, Fabien Roussel, preferiu destacar que “onde houve confrontos, foram por vezes provocados por militantes de extrema-direita” mas elogiou as forças de segurança que “foram capazes de frustrar antecipadamente as ameaças”.
Ao passo que a recém-eleita líder dos Verdes, Marine Tondelier, escolheu confrontar diretamente os líderes dos dois maiores partidos de extrema-direita, Eric Zemmour e Jordan Bardella, “que há três dias que anunciavam que isto iria degenerar depois do França-Marrocos” mas que “não tinham era dito que falavam dos vossos aliados identitários de ultra-direita que preparavam ratonnades à antiga”
Nos dias anteriores ao jogo, o ambiente de hostilidade foi sendo alimentado pelos quadros políticos dos partidos de extrema-direita. Jordan Bardella, o eurodeputado que se tornou o novo líder da União Nacional, o primeiro que não tem o apelido Le Pen, comentava no Twitter os distúrbios que aconteceram em Bruxelas depois da vitória da seleção marroquina de futebol contra a belga, com a frase “ontem em Bruxelas como antes em Saint-Denis no Stade de France, são sempre os mesmos perfis que dão origem a cenas de caos: pessoas incontestavelmente daqui mas cuja alma está noutro lado. Este ódio expresso contra o país que vos acolheu é insuportável”. Sobre os perfis e o ódio da noite da passada quarta-feira nada escreveu.
Atrás no campeonato político, o movimento Reconquista de Eric Zemmour tem corrido atrás do prejuízo através da intensificação do discurso de estigmatização. Apresentou-se este jogo entre duas seleções de futebol como sendo proveniente de um “choque de civilizações futebolístico” com “um jogo entre a oumma [a comunidade muçulmana] e o Ocidente”.
O próprio líder do partido no domingo passado na BFM-TV atiçava: “como reagiriam os marroquinos se em Marrakech milhares de franceses celebrassem a vitória de França? Iriam sentir-se despossuídos do seu país”.
Mas Zemmour não se coibia, ao mesmo tempo, de lançar o estigma sobre os jogadores do seu próprio país, dizendo que “é preciso que a equipa se pareça com o país. (…) Imaginem se na equipa de Marrocos houvessem dez jogadores que se chamassem François e Jean-Claude, penso que o rei se ia interrogar”.