Chamam-lhe gigante com pés de barro ou empresa mais endividada do planeta. E foi justamente o risco de incumprimento no pagamento de juros de parte dessa dívida total avaliada em mais de 250 mil milhões de euros, que vencem esta quinta-feira, a afundar os índices bolsistas da Ásia na última semana.
Os mais pessimistas comparam a situação da Evergrande à do Lehman Brothers, que despoletou a crise financeira de 2008. Mas no caso do gigante imobiliário chinês o endividamento foi feito junto de centenas de instituições financeiras e não através de complexos instrumentos financeiros montados sobre hipotecas. Além disso, o controlo do Estado chinês sobre o sistema financeiro permite-lhe intervir para evitar o alastramento de um eventual colapso ao resto da economia. Mas é precisamente o silêncio do Governo sobre a situação da Evergrande que está a assustar os mercados e a pressionar o valor das ações dos bancos que detêm dívida da empresa e dos fundos de investimento com posição na Evergrande.
A empresa detida por Xu Jiayin, que chegou a ser o homem mais rico da China, aproveitou o período de crescimento da economia do país e a subida do rendimento da população chinesa para se tornar num gigante da construção civil e o segundo maior promotor imobiliário do país. Em seguida, sempre alavancada por endividamento, diversificou os seus investimentos, que passaram pelos automóveis elétricos, saúde, parques temáticos, água engarrafada e até um clube de futebol.
O problema chegou quando os reguladores criaram “linhas vermelhas” sobre o endividamento do setor, para tentarem travar o surgimento de uma bolha imobiliária. O primeiro alvo foi a Evergrande, que começou a vender ramos de negócio para reduzir as suas dívidas.
Esta semana, a empresa anunciou ter chegado a um acordo para evitar o incumprimento no pagamento de juros que vencem agora, mas seguem-se outras datas limite para pagamento de juros nos próximos meses. Um dos maiores acionistas do grupo, a Chinese Estates, anunciou aos reguladores da Bolsa de Hong Kong que irá vender a sua participação na empresa num prazo de 12 meses, por causa das preocupações quanto à sua liquidez, assumindo um prejuízo de mais de mil milhões de euros no seu investimento, uma vez que o valor das ações da Evergrande caiu mais de 80% este ano.
Também esta semana, o presidente da Evergrande escreveu aos mais de 123 mil funcionários a pedir unidade no momento difícil que a empresa atravessa. “Eu acredito firmemente que os funcionários da Evergrande nunca baixam os braços, nunca são derrotados e só ficam mais fortes nas adversidades. Esta é a grande fonte de poder que temos para ultrapassar todas as dificuldades e vencer esta guerra”, escreve Xu Jiayin na carta em que também desejava um bom feriado por ocasião do Festival de meio de outono que se celebrou no início da semana.