A seleção nacional de futebol marroquina é a revelação do Mundial no Qatar. Para isso, conjuga-se o futebolístico - com a sua chegada às meias-finais - e a política, principalmente devido a uma certa leitura que mostra a nação marroquina - no seu conjunto e sem mediações - como um estandarte do triunfo de um país africano contra as potências europeias.
Para além destas duas leituras, há a propagandística - impulsionada pela monarquia de Mohamed VI - que procura, por todos os meios, encobrir a situação interna em Marrocos (crise financeira e protestos contra ele) com os triunfos da seleção de futebol. Como se isso não bastasse, aparece em força a "causa palestiniana", pois os jogadores marroquinos, após as suas vitórias, agitaram a bandeira da Palestina numa demonstração de apoio a um povo sujeito à repressão mais sangrenta por parte do Estado israelita.
Este último facto é o que despertou mais simpatia entre um grande número de pessoas - incluindo expressões abertamente progressistas ou de esquerda. Não é de admirar, porque não se emocionar e mostrar solidariedade para com o povo palestiniano - no século XXI - é demonstrar uma profunda falta de humanidade e de ética.
Mas há perguntas, algumas delas inquietantes, sobre o desempenho da equipa marroquina no Campeonato do Mundo e o que é construído à sua volta. Embora Marrocos tenha sofrido sob o colonialismo francês e espanhol, do qual conseguiu tornar-se independente em 1956, o país de quase 40 milhões de pessoas permaneceu ligado a uma monarquia que nunca hesitou em prestar reverência aos sucessivos governos de Paris e Madrid. O reinado alauíta - agora liderado por Mohamed VI, anteriormente pelo seu pai Hasan II e, no início, por Mohamed V - aplica sempre dois pesos e duas medidas que, por estes dias, parece diluir-se nas festividades mundialistas.
Pois se Marrocos e uma parte significativa da sua população - incluindo os seus jogadores de futebol - agitam com veemência a bandeira palestiniana, ao mesmo tempo aplicam e apoiam - no caso dos setores civis - uma política de ocupação ilegal do Sahara Ocidental, que teve início em 1975. Nesse ano, a Espanha retirou-se do território saharaui que colonizou e deixou o caminho aberto ao poder marroquino para o ocupar. Embora a propaganda emitida por Rabat mostre que milhares de marroquinos se deslocaram para o território pacificamente - no que é conhecido como a Marcha Verde - a verdade é que esta transferência maciça de pessoas foi acompanhada por bombardeamentos, deslocações forçadas de homens e mulheres saharauis, e o assassinato dos habitantes originais.
O vídeo viral que mostra os jogadores da seleção marroquina cantando "o Sahara é meu, os seus rios são meus e a sua terra é minha" é uma pequena amostra da extensão do poder colonizador marroquino. Perante isto, a questão básica é: porque é que Marrocos levanta as bandeiras da causa palestiniana, mas reprime, assassina, prende e, neste momento, bombardeia o povo saharaui?
No solo es fútbol.
La selección marroquí cantando “el Sáhara es mío, sus ríos son míos y su tierra es mia” así justifican y blanquean la ocupación ilegal de su país al Sáhara Occidental y el genocidio que comete contra el pueblo saharaui. pic.twitter.com/5rxOJPUruO
— Taleb Alisalem (@TalebSahara) December 8, 2022
A monarquia marroquina não só utiliza dois pesos e duas medidas em relação ao Campeonato do Mundo, mas fá-lo a todos os níveis. É bom lembrar que Mohamed VI "normalizou" as relações com o Estado israelita em 2020, o que envolveu suculentos negócios económicos e de armas, na mesma linha que outros países árabes como os Emirados Árabes Unidos (EAU), Bahrain e Sudão. Nesses casos, a causa palestiniana foi relegada para o abismo da história. Como o ativista saharaui Taleb Alisalem escreveu recentemente no artigo Not Just Football, "levantar a bandeira (palestiniana) após um jogo é apenas uma estratégia de marketing" para melhorar a imagem de Marrocos "no mundo árabe", uma vez que "a sua política vai noutra direção".
Sabemos que as lutas de libertação nacional e de independência em toda a África marcaram o pulso internacional durante muitas décadas. E até hoje, muitos líderes e líderes africanos - a começar por Patrice Lumumba - são exemplos de uma praxis coerente e de mudanças radicais muito necessários. Mas há que reconhecer também que muitos destes processos de libertação, tanto em África como no Médio Oriente, levaram a regimes despóticos e travaram o anseio dos povos por uma democracia profunda que permitisse a independência económica, política e social.
Marrocos, e aqueles que apoiam - a todos os níveis - a monarquia em Rabat, é precisamente a antítese dos conceitos de libertação, independência e solidariedade internacionalista. A forma impiedosa como o regime marroquino trata os migrantes africanos tentando chegar à Europa é uma clara demonstração de que o poder que controla o país tem pouco a ver com os valores humanistas básicos. Também os milhares de presos políticos que sofrem as mais variadas humilhações e torturas nas prisões de Mohamed VI não deveriam considerar o Makhzen como um exemplo de anticolonialismo. Muito menos os saharauis a quem a "nova jóia mediática de África" lhes roubou terras, recursos e, em demasiados casos, vidas.
Como em todos os eventos de massas - salvo poucas exceções - o futebol é atravessado pela política, pela propaganda e pelos interesses dos poderes estatais e transnacionais. O Mundial no Qatar é o exemplo mais claro: uma monarquia absoluta, sustentada na coação das liberdades, na negação das minorias étnicas e religiosas, e que representa os valores (culturais e financeiros) mais cruéis do capitalismo, desfruta agora da sua própria festa futebolística. E o regime marroquino, sem que muitos se apercebessem, é agora também convidado para esta festa. Cabe-nos a nós definir que golos vamos celebrar e que bandeiras vamos acenar ante o olhar dos povos oprimidos.
Leandro Albani é jornalista argentino, analista político sobre o Médio Oriente e autor de vários livros sobre o Curdistão e o Estado Islâmico. Artigo publicado no portal La Tinta, traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.