Durante a sua intervenção, Catarina Martins afirmou que o primeiro ministro tentou “fazer um número difícil, que foi reescrever as suas próprias palavras e a sua própria história, talvez inspirado pelo CDS, que decidiu apagar das redes sociais tudo o que tinha escrito quando estava na oposição”.
“O senhor primeiro ministro veio hoje aqui dizer-nos que afinal o que tinha dito sobre o Documento de Estratégia Orçamental (DEO) é que as medidas não eram para a consolidação orçamental”, avançou a dirigente bloquista, lembrando que, na realidade, Passos Coelho afirmou, no dia 14 de abril em Valongo, que não eram medidas que incidiam “em matérias de impostos, salários ou pensões”.
"Já vai sendo habitual que este Governo prometa no ar vagos aumentos de impostos ou aumentos salariais para depois assinar nas costas dos portugueses sempre e só cortes de salários e aumentos de impostos”
“O senhor primeiro ministro disse uma coisa numa semana e desdisse-a no DEO na semana seguinte”, referiu Catarina Martins, sublinhando que, “aliás, já vai sendo habitual que este Governo prometa no ar vagos aumentos de impostos ou aumentos salariais para depois assinar nas costas dos portugueses sempre e só cortes de salários e aumentos de impostos”.
“É por isso que é importante conhecer a carta de intenções do governo. É por isso que precisamos de saber com o que é que o Governo se está a comprometer para o futuro. Porque, de facto, senhor primeiro ministro, a sua palavra não chega!”, enfatizou a coordenadora nacional do Bloco de Esquerda.
Durante o debate parlamentar, Catarina Martins questionou ainda Pedro Passos Coelho sobre "o que o Governo está a fazer para impedir a conferência do BCE em Portugal no dia das eleições".
Lembrando que a lei eleitoral é bem clara ao estipular que é proibido no dia das eleições qualquer tipo de propaganda que influencie, direta ou indiretamente, o sentido de voto dos cidadãos, a dirigente bloquista frisou que a realização da conferência do BCE, na qual participarão Mário Draghi, Durão Barroso e Christine Lagarde, constitui uma “ingerência no processo eleitoral com laivos provocatórios sobre o nosso país”.
“Nada assemelha tanto Portugal a um protetorado do que ter no dia das eleições a troika a aterrar cá de malas e bagagens”
“Nada assemelha tanto Portugal a um protetorado do que ter no dia das eleições a troika a aterrar cá de malas e bagagens”, defendeu Catarina Martins, acrescentando que “há um elemento de dignidade nacional que o senhor primeiro ministro despreza, como despreza sempre”. “Ficamos, aliás, curiosos por saber se está a pensar ir a tal cimeira”, acrescentou.
A coordenadora nacional do Bloco acusou Pedro Passos Coelho de “fugir às questões e de fazer jogos de palavra”, alertando que, contudo, “há jogos de palavras que não escondem o essencial”. “Sobre o DEO e tudo o que disse até agora, é caso para dizer que mais depressa se apanha um primeiro ministro do que um coxo”, salientou.
Catarina Martins questionou ainda o primeiro ministro sobre o que vai acontecer com os salários da Função Pública em 2015 e se a combinação entre a nova tabela salarial e a reposição que foi prometida pode significar perda de rendimento para os funcionários públicos. “Queremos que garanta que nenhum funcionário público vai ter perda de rendimentos e queremos também que esclareça o que está a pensar fazer com os salários dos privados, e se é verdade que faz parte das intenções do Governo cortar os salários nos privados através da caducidade da contratação coletiva”, frisou.
A coordenadora nacional do Bloco assinalou que o Governo vai buscar sempre o dinheiro a quem trabalha. “Porque quando nunca há folga orçamental para que o IRS possa baixar, o IRC já baixou. Porque quando não há fundos para acolher aos desempregados e desempregadas que estão sem nenhum apoio houve dinheiro para pagar os SWAP's. Há sempre 'dinheirinho' para a finança. Nunca há a solidariedade, o apoio necessário a quem trabalha”, lamentou.
Durante o debate parlamentar, o primeiro-ministro acabou por admitir, por sua vez, que “se medidas importantes que nos permitem criar poupanças do lado da massa salarial, não tiverem conformidade constitucional, novos aumentos de impostos ocorrerão”.