Como é que correram as coisas em Palermo?
Foi uma loucura, senti-me como um jogador de futebol. Quando aterrei estavam imensas pessoas à minha espera a chorar. O SYRIZA tornou-se num farol para a esquerda na Europa. Falamos por muitos cidadãos. Para os italianos, nós representamos um projeto de um partido agregador. Em toda a Europa, inúmeros cidadãos viram o seu salário cortado e têm dívidas aos bancos e esperam que consigamos apresentar alternativas.
A crise acabou? É o que tem sido reportado nos meios de comunicação suecos.
É isso que eles dizem? Seriam incapazes de dizer isso na Grécia. Com 30% de desemprego e 60% de desemprego jovem? Com 3 milhões de pessoas sem segurança social? Temos uma crise humanitária na Grécia. Este ano, o número de mortes provocadas pela gripe cresceu exponencialmente e os peritos dizem que é devido às dificuldade sentidas no acesso à vacina e a cuidados médicos básicos.
Mas a Grécia tem um superavit de 1.5 mil milhões pela primeira vez desde o início da crise e já pode ir aos mercados.
Estou convencido de que as estatísticas são tendenciosas. O governo manipulou o orçamento de forma a provar que o programa da troika foi um êxito. Se nós estivéssemos no governo, eles nunca teriam reconhecido o superavit orçamental. Esta política é muito, mas muito suja. Os números positivos foram apresentados e no dia seguinte a troika entregou um acordo de 600 páginas que requer uma votação no Parlamento. O acordo pede que o Estado disponibilize 50 mil milhões de euros para os grandes bancos, que liberalize o código do trabalho, que corte ainda mais nos salários e avance com mais privatizações. Contudo, o governo está em pânico por causa do escândalo nazi com Baltakos, e a troika viu uma abertura para avançar com a sua agenda. O governo quer convencer-nos que o programa da troika é uma história de sucesso. Mas quem é que eles estão a tentar enganar? Quando o primeiro memorando de entendimento foi assinado a dívida pública era de 120% do PIB. Não conseguimos ir aos mercados nessa altura. O que mudou até agora é que podemos ir aos mercados mas temos uma dívida pública que é de 175% do PIB.
Muita gente pensa que será o próximo primeiro ministro Grego. O que seria a primeira coisa que faria ao assumir o cargo?
A primeira coisa seria regular o pagamento dos juros. A segunda seria abolir as leis que a troika implementou na Grécia. Há mais de 400 leis e é importante realçar que, na realidade, a troika criou uma nova instituição no nosso país. A terceira medida seria aliviar a crise humanitária. A quarta seria restaurar a base produtiva da Grécia. Vamos restaurar os salários para os níveis anteriores à crise. Vamos aumentar o salário mínimo no setor privado de 520 euros por mês para 750 euros. Estamos preocupados com o facto de as pessoas aceitarem salários mais baixos devido à chantagem do desemprego. A única forma de aumentar o salário é reduzir o desemprego.
O que acontece se for primeiro ministro, implementar o seu programa e a Europa o rejeitar? Sem dinheiro a Grécia estará numa posição difícil para um partido de Esquerda implementar reformas.
A questão é: a Europa aceitará a ocorrência de uma crise humanitária? Já temos uma escassez de medicamentos. As pessoas estão a viver sem eletricidade. Tudo indica que tudo vai piorar. Por isso sim, é necessário renegociar a dívida. O pagamento de juros tem de acabar e através de um encontro com todos os países endividados da periferia da Europa, uma solução comum tem que ser proposta. Nós queremos um “New Deal” Europeu, uma solução semelhante àquela que foi proposta à Alemanha em 1953. A Europa vai concordar em ajudar-nos e até estarmos numa posição de recuperação económica o pagamento de juros tem que ser interrompido.
Honestamente, acha que o FMI e os líder Europeus vão concordar com isto?
Sou realista. Será difícil eles recusarem. Há cada vez mais pessoas que reconhecem o desastre que tem sido o programa da troika. Isto não pode continuar. Até o FMI fala em aliviar a dívida. A bancarrota da Grécia é a última coisa que a Europa quer ver – por um lado porque nós somos um risco sistémico para o Euro e para os bancos, por outro porque a Alemanha já ganhou 40 mil milhões de euros durante a crise e isso é só o lucro com os títulos da dívida. Se a alternativa é a bancarrota ou um governo que negoceia os termos da dívida, eles não tem alternativa.
O que é que acha das recentes revelações que avançam que o Partido Conservador prendeu membros da Aurora Dourada por motivos políticos?
Nós sabemos que os colegas de Samaras (Antonis Samaras, primeiro ministro Grego) tinham uma relação com a Aurora Dourada. Todos sabiam, mas era difícil provar. Agora tornou-se evidente. As más notícias é que esta situação está a aumentar o apoio do Aurora Dourada. Eles dizem que foi uma negociação política e que foram injustamente condenados. Pessoalmente, penso que a decisão do governo em revogar a sua amnistia e prendê-los foi uma decisão acertada, devia era ter sido tomada há mais tempo. Dendias, o Ministro da Justiça, tinha provas da violência nazi do Aurora Dourada há mais de um ano e meio. Isto coloca-nos a seguinte questão: porque é que só foram tomadas medidas contra o Aurora Dourada quando Fyssas (Pavlos Fyssas, artista anti-racista) foi morto? O que o video de Baltakos a negociar com o Aurora Dourada prova é que os nazis não são anti-sistema. Antes pelo contrário, são uma parte do sistema mesmo que queiram que os votantes pensem o oposto.
Diz que vai criar uma base produtiva. Historicamente os países do sul da Europa não tiveram a indústria pesada que a Europa do norte teve. Aliás, a Europa do sul tinha uma indústria leve, serviços e agricultura. Não será isto uma das razões para este desequilibro comercial? O que é que acha que a Grécia deve produzir?
Isto não é um país onde se façam carros. Mas temos imensos recursos naturais a serem desenvolvidos: metal nas montanhas, minerais e gás natural – que estão agora a ser privatizados. Queremos moldar o setor do turismo e investir em tecnologia verde, em energia solar. Mas o nosso principal ativo é a juventude altamente qualificada. Mais de 300.000 jovens qualificados saíram da Grécia nos últimos anos.
Há quem esteja a aproveitar a crise para adquirir o património do Estado Grego. Vai renacionalizar estes bens, como a linha férrea?
A linha férrea não é uma prioridade. Era subdesenvolvida quando era propriedade do Estado. Em contraste, a água e a eletricidade têm de manter-se públicas, tal como todos os bens públicos que servem o bem comum dos cidadãos. Temos que envolver capital estrangeiro, mas em parceria com o Estado.
Virando agora para as questões mais pessoais. Os seus pais estavam envolvidos na política?
O meu pai era um engenheiro e a minha mãe era dona de casa. Eles não estavam envolvidos ativamente na política. Ainda muito novo, creio que foi aos 7 anos, peguei em todos os jornais do meu pai, espalhei-os no chão e tentei lê-los. Eu envolvi-me politicamente de uma forma ativa na Universidade. Fazíamos colagens de cartazes a noite toda e tudo era muito romântico. Pensávamos que íamos trazer a revolução.
O que é que os seus pais achavam disso?
Eu não era muito explícito sobre as minhas atividades. Eu sempre fui contra a corrente. Juntei-me à Liga da Juventude Comunista em 1989, mesmo após a queda do muro de Berlim e durante a Perestroika. Enquanto toda gente estava a abandonar o comunismo, eu estava a ficar atraído por ele.
No que diz respeito à sua candidatura a Presidente da Comissão Europeia - Foi sua a ideia?
Não, não! A ideia foi da Gabi Zimmer, presidente do GUE/NGL, que me colocou essa hipótese em outubro passado. No princípio, eu não estava muito certo, mas depois apercebi-me do seguinte: é uma oportunidade brilhante porque dá-nos a possibilidade de jogar no campo deles. É a primeira vez que a Esquerda Europeia terá a oportunidade de moldar as políticas da União Europeia. Vamos quebrar o consenso social democrata e liberal que tem prevalecido. As pessoas têm os mesmos problemas em toda a Europa. As fronteiras não nos separam, o que nos separa são as classes sociais. O desemprego jovem, a habitação social, as alterações climáticas afetam-nos a todos em todas as partes da Europa. Nós temos sido governados pelos bancos há demasiado tempo. Há uma guerra entre classes que é mascarada por resgates. Agora a esquerda começou a resistir. Precisamos de soluções comuns. Governar a União Europeia irá dar-nos a oportunidade de transformá-la em algo totalmente diferente.
Excerto da entrevista publicada originalmente em Sueco, no sitio da ETC.