Num almoço-comício em Coimbra, Mariana Mortágua garantiu que “onde está o Bloco de Esquerda, não estará a especulação imobiliária, não estarão as negociatas”, assegurando que o partido vai continuar a ser a voz que denuncia a lei dos solos.
A propósito dela lembrou-se da história da Herdade da Comporta, área protegida, reserva ecológica nacional e reserva agrícola, que era “a maior propriedade privada do país” e “pertencia à maior família do país, a família Espírito Santo”. Contando como estes, nos anos 2000, foram ter com a autarquia de Alcácer do Sal para propor um plano pormenor para requalificar terrenos agrícolas que foram vendidos a familiares que depois “encontraram barracões e galinheiros em cada um daqueles lotes” que lhes permitiram construir em zona protegida “porque já havia edificações anteriores”. Posteriormente uma inspeção descobriu que dos 140 lotes ali construídos, 109 não tinham licença.
No município ao lado, em Grândola, Ricardo Salgado resolveu construir a sua casa de férias e fez o mesmo: “alega que havia construções anteriores, que não havia nem estavam provadas, e constrói uma casa de 480 m2 em cima das dunas em reserva nacional”.
Para a coordenadora bloquista, “isto é a história do território em Portugal”, de “empreiteiros e promotores gananciosos” e “autarcas irresponsáveis que venderam o nosso território, que o desprotegeram e que não quiseram saber do ordenamento”.
É neste contexto portanto que surge a lei dos solos do governo de direita “para alterar as regras do ordenamento do território e para permitir construção em reserva agrícola e em reserva ecológica” e “voltar a libertar a maldição da especulação imobiliária e da destruição do território”.
Segurança são direitos não mais armas
A eurodeputada Catarina Martins trouxe o tema da política de segurança europeia em que verdes, socialistas, liberais, direita tradicional e de “boa parte da extrema-direita” se juntam para dizer que “ segurança é armas” e “ que precisamos é de despesa militar”.
Para desmontar estes argumentos, contrapôs que a Nato já gasta mais em despesa militar do que todos os outros países do mundo juntos e que “os membros europeus da Nato, em conjunto, o ano passado, gastaram quase quatro vezes o que gastou a Rússia em despesa militar”.
Além disso, julga que “a segurança que nós precisamos é aquela da vida de todos os dias”, construída com respeito ao Direito Internacional e “comunidade dos Estados” pelo que “a posição da União Europeia na cumplicidade com Israel é desastrosa”. A “segurança que é preciso termos na vida” está no direito à habitação, no acesso à saúde, na certeza que há transporte ou que há educação, defendeu.
Criticou ainda as declarações de Pedro Nuno Santos sobre emigração, vincando que a solução é o investimento em serviços públicos que o nosso país precisa para dar resposta a toda a gente. Assim, “não se trava a migração para se construir serviços públicos. Investe-se em serviços públicos para responder a toda a população”. Acrescentando ainda que pelos problemas da habitação devem ser responsabilizados “os senhorios abutres da especulação imobiliária” e não os trabalhadores que ganham “salários que ninguém mais ninguém aceitaria, em horários impossíveis e desumanos”.
Trump cauciona limpeza étnica em Gaza, entre os imigrantes portugueses e Trump André Ventura escolhe Trump
A deputada Marisa Matias falou na reeleição de Trump e na extrema-direita “que se alimenta da desorientação e desorganização no mundo do trabalho”, é “um veículo claríssimo do capital para se servir do poder político” e “assenta no nacionalismo autoritário, xenófobo, demagógico, machista, negacionista climático, islamofóbico e antisemita”, para além da “indiferença total ante os impactos sociais e ecológicos do capitalismo”.
Trouxe ainda à baila as palavras de ontem do presidente norte-americano ao sugerir retirar os palestinianos de Gaza e enviá-los para os países vizinhos, ou seja “limpar Gaza” nas suas palavras. Declarações acompanhadas pela decisão de retomar o fornecimento de bombas pesadas a Israel.
A dirigente bloquista notou que o resultado disto foi que Israel decidiu manter as tropas que devia estar a retirar e bloquear o acesso dos palestinianos que estavam a regressar ao Norte de Gaza. Questionou assim: “quem é que se atreverá ainda a dizer que não estamos a falar de limpeza étnica? Quem é que se atreverá ainda a dizer que não houve um genocídio cometido de forma intencional?”
Marisa Matias falou ainda da política de deportações em massa de migrantes. Na “lista de deportações possíveis”, avisa, “estão identificados milhares de cidadãos portugueses, cidadãos açorianos”. Mas o governo nacional continua a falar de “excelentes relações” e o dirigente de extrema-direita, André Ventura, viajou para a tomada de posse de Trump mas em relação a isto não disse “praticamente nada”. Concluindo que “entre o Trump e os emigrantes portugueses fora do país, André Ventura escolhe Trump”.
Coimbra: a direita governa “mais para os slogans do que para os resultados”
O dirigente bloquista Miguel Cardina centrou a sua intervenção em Coimbra, “uma cidade com muita dificuldade em conseguir fixar quem aqui nasceu ou quem para aqui vem estudar”, “transformada num estaleiro de obras e num cenário para festas e inaugurações”.
Acusou o executivo de direita de governar “mais para os slogans do que para os resultados”. Um dos exemplos que deu foi a habitação para a qual tinha sido prometido “pomposamente” um “Plano Marshall” para a baixa mas isso “resultou até agora em pouco ou quase nada”. Há 11 mil fogos devolutos e não há um plano de reabilitação urbana “integrado e de grande envergadura e “aposta-se na espacialização da pobreza” com 90 % da habitação pública no Planalto do Ingote, uma zona com fortes carências de infraestruturas educativas e culturais, e um novo mega bairro social que surgirá em Taveiro.
Ao PS critica-se ter sido “uma oposição ausente ou uma presença complacente” que não é solução. Assim, os bloquistas não querem ser “pequenos botes coadjuvantes de uma candidatura do PS” mas construir uma “candidatura que será forte, combativa e agregadora”.