Entrevista

Os nazis não eram socialistas, eram hipercapitalistas

25 de janeiro 2025 - 20:20

Conservadores e liberais adoram dizer que os membros do partido de Adolf Hitler eram socialistas. Mas as políticas económicas do nazismo na realidade sustentavam princípios hipercapitalistas enraizados em ideias darwinistas sociais sobre o valor da vida humana. Não eram socialistas de forma alguma. Entrevista com Ishay Landa.

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Hitler com Ferdinand Porsche.
Hitler com Ferdinand Porsche.

Um dos argumentos mais enfadonhos utilizados contra o socialismo é a alegação de o nazismo era de alguma forma “socialista” e, portanto, algo pelo qual a esquerda precisa responder. Os homens de Adolf Hitler direcionaram toda a economia para a guerra, colocaram o Estado acima do indivíduo – e, como argumento decisivo, até se auto-denominaram “nacional-socialistas“.

Xeque-mate? Não exatamente. Mesmo não tendo em consideração que outros partidos conservadores e liberais votaram, de facto, para dar plenos poderes a Hitler em 1933, o seu regime foi caracterizado por significativas intervenções para ajudar os negócios privados. E o darwinismo social defendido pelos nazis, que julgava os “improdutivos” como mera despesa desnecessária, obedecia à lógica de julgar a vida humana pelo critério do lucro.

Em 2009, o historiador israelita Ishay Landa publicou o livro The Apprentice’s Sorcerer: Liberal Tradition and Fascism (O sacerdote do aprendiz: Tradição Liberal e Fascismo), um extenso estudo dos interesses económicos e sociais que os nazis realmente seguiam. Nesta entrevista com a Jacobin, ele explica o que o termo “socialismo” significava para Hitler, como as visões políticas e económicas do ditador estavam conectadas – e por que podemos ver os perigos do liberalismo económico em Elon Musk na atualidade.

 

Nils Schniederjann: No teu livro, examinas as políticas económicas e a ideologia dos nacional-socialistas na Alemanha. As políticas nazis eram realmente socialistas?

Não, obviamente não. É verdade que os nazis ocasionalmente usavam o termo afirmativamente. Algumas pessoas cinicamente agarram-se a isso como algum tipo de prova: “Eles eram socialistas porque se chamavam de socialistas!” Mas eles eram deveras anti-socialistas, se pensarmos em qualquer sentido real do termo.

 

Então por que decidiram usar a palavra “socialismo”, afinal?

Temos que entender o contexto em que eles aplicaram o termo. Atualmente, os políticos de direita não usam mais esse termo. Porquê? Porque o socialismo já não é tão popular. Mas, naquela época, os anti-comunistas enfrentavam o desafio de ganhar acesso aos redutos socialistas e converter o máximo possível de eleitores da classe trabalhadora. Então, tinham que apresentar as suas políticas de maneira a que tivessem algum ponto comum com os interesses da classe trabalhadora. O truque era beneficiar da popularidade do socialismo, que era amplamente visto como o que viria a ser uma força no futuro, mas ao mesmo tempo distanciar-se o máximo possível da sua substância.

 

Se os nazis se auto-denominavam socialistas apenas por razões estratégicas, como funcionavam as políticas económicas deles na realidade?

Eles eram profundamente capitalistas. Os nazis davam grande ênfase à propriedade privada e à livre concorrência. É verdade que intervieram no livre mercado, mas deve-se lembrar que foi uma época de falha sistémica do capitalismo numa escala global. Quase todos os Estados intervieram no mercado na época, e fizeram-nos para salvar o sistema capitalista de cometer autofagia. Isto não tem nada a ver com um sentimento socialista, era pró-capitalista. De certa forma, há um paralelo aí com a forma como os grandes bancos foram resgatados pelos governos após a crise financeira de 2008. Tal comportamento, é claro, não refletiu intenções socialistas de forma alguma. Foi apenas uma tentativa de estabilizar um pouco o sistema.

 

Mas os capitalistas não prezam sempre pelo máximo de liberdade possível?

Não necessariamente. As intervenções estatais naquela época ocorreram em acordo com o sistema industrial. Os capitalistas até o exigiram porque as políticas de livre mercado nem sempre são do melhor interesse desse grupo. Às vezes, eles precisam do Estado para socorrer o livre mercado. Então, as intervenções não foram simplesmente impostas à economia pelos fascistas – foi uma decisão consensual refletindo as exigências de muitas secções importantes do setor industrial. O objetivo era essencialmente orientar o sistema em favor das grandes empresas.

 

Como a ideologia política dos nazis está relacionada com essa tentativa de estabilizar o sistema?

Hitler é frequentemente acusado de fazer com que as suas visões políticas prevaleçam sobre interesses económicos, uma alegação que é parcialmente verdadeira. Mas quais eram exatamente suas visões políticas? Se pensarmos nas obsessões mais radicais de Hitler – por exemplo, darwinismo social, eugenia ou antissemitismo – à primeira vista parece que elas só podem ser entendidas isoladamente de considerações económicas. No entanto, se olharmos mais de perto cada um desses elementos, veremos que eles tinham uma base económica indispensável.

 

Podes dar um exemplo disso?

O darwinismo social é, na verdade, uma forma de hipercapitalismo. Absorve do capitalismo esse foco de que a competição é uma luta de todos contra todos. E os nazis argumentaram: “Bem, na natureza é assim que funciona.” Isto não é uma rutura com o capitalismo, mas uma intensificação das visões económicas. O capitalismo, na visão dos nazis, é simplesmente uma parte da natureza. Então, não é apenas uma questão de dominação política, mas de naturalizar contradições económicas. Hitler, na época, disse que os “judeus” são os principais manipuladores que estão a tentar fazer um pequeno truque à natureza para tornar a luta pela sobrevivência supérflua. A vontade de interferir na economia fez com que os judeus assumissem um papel de traiçoeiros, do ponto de vista nazi.

 

Mas essa visão muito positiva da livre concorrência e da luta de todos contra todos não é precisamente a marca registada do liberalismo económico?

Hitler não inventou nada disso, é claro; tais conceitos já eram comuns para o coletivo conservador e economicamente liberal. Podia-se ouvir declarações muito semelhantes, sobre a necessidade de competição implacável, no discurso económico liberal da época. Que alguém como Hitler se pudesse tornar o “líder” de uma grande nação industrial era, afinal, o ápice de certas visões amplamente populares sobre economia e os devidos limites da atuação popular e política. As políticas de Hitler atendiam aos desejos de muitos industriais – e era isso que justamente o tornava tão atraente para grandes setores da burguesia e das classes tidas como educadas. Tinha-se a impressão de que os nacional-socialistas eram os libertadores da economia, livrando-a de fardos desnecessários como sensibilidade política e humanística.

 

Através da eugenia, por exemplo?

Exatamente. O assassinato de pessoas com deficiências físicas, mentais e psicológicas também estava diretamente ligado a preocupações económicas – pretendia livrar a economia de pessoas que eram consideradas um fardo. A linguagem empregada pelo nazismo era bastante centrada económica e financeiramente. Por exemplo, um cartaz de propaganda típico dizia: “60.000 Reichsmarks ao longo de uma vida: este é o custo dessa pessoa portadora de uma doença hereditária para a Volksgemeinschaft [a palavra nazi para comunidade nacional]. Volksgenosse [camarada nacional], isto também vem do teu dinheiro.”

Até mesmo a Shoah está relacionada a considerações económicas. Pois na ideologia nazi, os judeus eram vistos como o obstáculo maior. Obstáculo para o quê? Para o capitalismo, principalmente. Eram considerados a espinha dorsal do marxismo. Os nazis interpretaram o marxismo como uma conspiração essencialmente judaica contra a economia capitalista – e, portanto, contra a ordem natural. Claro, a Shoah foi o resultado de muitos fatores e a culminação de várias obsessões, fobias e ódios nazistas. Mas entre todos estes, não se deve perder de vista este fator socioeconómico.

 

Mas então por que os nazis foram capazes de chamar o marxismo de grande mal que deve ser erradicado, enquanto usaram o socialismo como um slogan positivo para o seu movimento?

O termo “socialismo” – no formato empregado por eles – não queria dizer nada que nós remotamente reconheceríamos como socialista, mas sim a sua política de intervenção no livre mercado para o benefício dos capitalistas. Pelo termo “marxismo”, por outro lado, eles queriam dizer a social-democracia e a proteção dos direitos básicos dos trabalhadores. Em Mein Kampf, Hitler diz que a sua visão de mundo antissemita atingiu a completude no momento em que ele percebeu que os judeus eram os mentores da social-democracia. O discurso nazi era uma maneira muito conveniente – embora cínica – de manipular conceitos e atribuir-lhes significados completamente novos.

 

Se isso é tão óbvio, porque houve estes debates recentes na Alemanha sobre uma suposta política socialista dos nazistas?

Bem, isso não é novo e tem uma longa história. Já durante a época do fascismo, houve tentativas de retratar os nazis como socialistas, por exemplo, por Ludwig von Mises. Mas, de modo geral, os esforços para estabelecer uma ligação direta entre o marxismo e o nacional-socialismo vinham de uma minoria. Então, a partir da década de 1980, ocorreu um ponto de viragem quando uma corrente revisionista começou a emergir nos estudos sobre o fascismo. Ela buscou vincular o fascismo muito mais fortemente com a esquerda política, com a revolução e com o anti-capitalismo. Isto aconteceu num momento em que o neoliberalismo estava a começar a desmantelar o estado de bem-estar social, o que tornou esse movimento ideológico muito conveniente. Os defensores dessa política diziam: “Os nazis, na verdade, defendiam uma forma autoritária de socialismo!” Atacar o estado de bem-estar social poderia, portanto, ser apresentado como um ato antifascista, uma resistência ao nazismo e uma limpeza dos seus resíduos políticos.

 

Então, transformar nazis em socialistas é também uma ferramenta para promover políticas contra os trabalhadores?

Isso mesmo. Quando foi que intelectuais começaram de facto a escrever livros acusando os nazis de terem buscado políticas económicas socialistas? Quando foi que eles começaram a acusar os nazis de terem ajudado as massas às custas da burguesia? Exatamente na época em que os políticos tentaram impor reformas neoliberais no mercado de trabalho. Desta forma, a historiografia está ligada às realidades económicas. Os decisores políticos usaram estas teorias para apoiar os seus ataques ao estado de bem-estar social. Götz Aly, o historiador alemão, disse numa das suas entrevistas na viragem do milénio que era tarefa do governo social-democrata de Gerhard Schröder finalmente pôr fim à “Volksgemeinschaft“. Assim, ao liberalizar a economia, os últimos vestígios do nacional-socialismo seriam removidos da política alemã. Este tipo de pensamento mostra como as tendências políticas atuais estão ligadas às maneiras como percebemos o passado.

 

Mas os liberais alguma vez confrontaram o facto de que Hitler estava, em parte, a promover o programa político deles?

Nunca houve um acerto de contas verdadeiramente eficaz e direto sobre esse legado. Nos anos do pós-guerra, houve um consenso de que o Estado tinha que melhorar moderadamente a situação dos trabalhadores – mesmo dentro de uma estrutura liberal. Se houve uma admissão de culpa por parte dos liberais, foi feita com base na premissa de que as políticas nazis não tinham sido um verdadeiro liberalismo. O liberalismo nazi – assim argumentavam os poucos académicos que admitiam qualquer relação entre as duas ideologias – tinha sido malfeito, irremediavelmente antiquado e renunciando à dimensão democrática inerente ao liberalismo.

Mais tarde, no entanto, houve uma mudança radical. De repente, os liberais estavam muito mais inclinados a dizer: “O nacional-socialismo era socialista. E se lutas contra o socialismo para criar um mercado que seja o mais livre possível de qualquer interferência política, és um bom antifascista.” Esta foi a fase muito mais duradoura e anti-“populista” do engajamento liberal com o passado.

 

Outra maneira de impor reformas economicamente liberais é vincular a liberalização social e económica. Achas que o liberalismo económico anda sempre de mãos dadas com o progresso social?

Acho que deveríamos fazer uma distinção entre as dimensões económica e política do liberalismo. No começo, elas às vezes andavam de mãos dadas. Mas, em determinado momento, o aspeto económico e político afastaram-se. Os liberais então tiveram que decidir onde estavam as suas prioridades. São liberais económicos que defendem a propriedade privada, a sociedade de classes e o livre mercado a todo custo, ou preferem que a democracia liberal realmente cumpra a sua promessa de liberdade e autodeterminação para todas as pessoas? Esta contradição ainda não foi resolvida. E a necessidade de fazer uma escolha entre as duas opções permanece.

 

Porque não se pode ter os dois aspetos juntos?

O senso comum diz-nos que o liberalismo sempre anda de mãos dadas com as liberdades políticas e individuais, o que às vezes é verdade. Mas o que é esquecido é que desde o início o liberalismo não se abriu apenas às possibilidades políticas, mas também as restringiu severamente. O que o liberalismo tinha que deixar claro desde o início era que a propriedade privada é intocável; que ela forma a base inatacável da ordem política.

Então, importantes pensadores liberais insistiram – desde John Locke – que não se pode taxar os ricos sem o consentimento deles. Se se fizer isso, dá-se às vítimas dessas políticas uma boa razão para se rebelar e usar a violência contra os usurpadores. A política liberal, portanto, tinha uma opção ditatorial intrínseca desde o início. E assim se tornou um dogma presumir que a principal tarefa da política é proteger a propriedade e o seu principal pecado é insurgir-se contra ela. Mas é claro, essa é uma definição muito limitada do que a política pode ou deve fazer. E sofremos com esse confinamento até hoje. Numa democracia ocidental típica, podem-se fazer muitas coisas – desde que nos abstenhamos de infringir a propriedade privada.

 

Então há algo na estrutura básica do liberalismo económico que realmente limita a liberdade das pessoas?

O capitalismo é essencialmente uma estrutura económica antidemocrática: isso significa, acima de tudo, dominação sobre os trabalhadores. O capitalismo é hierárquico, não igualitário. Há também uma concentração massiva de riqueza, o que levanta uma questão crucial: como podemos redistribuí-la? O liberalismo clássico diz: “Não faças nada para mudar a situação”. Mas isso limita estritamente a esfera política e reduz enormemente as suas possibilidades. Se mantivermos a economia isolada da deliberação política, a democracia será seriamente prejudicada. Então, a visão económica liberal é dizer às massas: “Não tentes ser muito lógico quando pensares em democracia! Não tentes levar a democracia a sério. Isso só cria muitos problemas!”

 

E não tentes melhorar a situação económica para ninguém além da burguesia.

Exatamente. E esse continua a ser o caso até hoje. As declarações de Elon Musk fornecem ricos exemplos para o que estamos a discutir aqui porque ele é bem franco e descarado sobre tudo isso. Disse recentemente que os americanos estão a tentar fugir do trabalho duro e que deveriam seguir o exemplo dos trabalhadores chineses “que passam a noite a trabalhar”. Esta é uma declaração muito clara porque, claro, ele sabe que os trabalhadores chineses não têm como resistir democraticamente às exigências de trabalho duro. Ele sugere que o sistema democrático é muito frouxo e indulgente e que precisamos de um sistema muito mais rigoroso para disciplinar os trabalhadores, para fazê-los trabalhar duro e aceitar salários baixos – um sistema como o que vemos na China.

 

Musk está com os republicanos...

Essa é uma boa indicação da opção ditatorial incorporada no pensamento liberal. Não estou a dizer de forma alguma que todos os liberais apoiariam algo assim. Mas é muito difícil conciliar o liberalismo económico e político. Como resultado desse enigma, alguns liberais políticos escolhem um caminho diferente economicamente, e outros oscilam entre os dois polos sem nunca realmente conseguirem resolver o conflito fundamental. Até certo ponto, pode-se argumentar que o socialismo é em si um filho do liberalismo político. Marx e Engels começaram como liberais políticos e nunca abandonaram as ideias básicas do liberalismo: liberdade e participação democrática para todos. Eles apenas desenvolveram o seu conceito ainda mais porque reconheceram que, sob o capitalismo, as perspetivas para a realização de um projeto democrático genuíno eram seriamente limitadas.


Ishay Landa é autor de The Apprentice’s Sorcerer: Liberal Tradition and Fascism.

Entrevista de Nils Schniederjann.

Texto publicado originalmente na Jacobin. Traduzido por Fernado Lunardello para a Jacobina. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.