O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, disse este domingo que Portugal não está num "ciclo vicioso", mas a ver "a luz ao fundo do túnel" e a "vislumbrar a saída de um período difícil", depois de ouvir dois grupos folclóricos cantarem as Janeiras nos jardins da residência oficial de São Bento, em Lisboa. A negação de que a economia portuguesa está numa "espiral recessiva" é uma resposta ao Presidente da República, sem o mencionar. Na sua mensagem de Ano Novo, Cavaco Silva disse que era preciso “pôr cobro a esta espiral recessiva, em que a redução drástica da procura leva ao encerramento de empresas e ao agravamento do desemprego”.
Passos Coelho dirigiu-se a “todos os portugueses que vivem dificuldades”, dizendo-lhes:
"Que consigam vislumbrar ao longo deste ano aquilo que se chama a luz ao fundo do túnel, quer dizer, o motivo de esperança para perceberem que nós não estamos a iniciar um ciclo vicioso de que não conseguimos sair, mas apenas a vislumbrar a saída de um período difícil que estamos a completar, porque outra forma não há senão passar por ele e resolver os problemas".
Discurso do Pontal
Recorde-se que a última vez que usou estes termos, no famoso “discurso do Pontal” em agosto do ano passado, o primeiro-ministro anunciou logo em seguida a subida de impostos e contribuições dos trabalhadores para a Segurança Social e a redução da TSU. Pouco depois, desistiu da redução da TSU mas anunciou o “aumento colossal” de impostos no Orçamento para 2013. E ainda o corte permanente de mais 4 mil milhões de euros nas despesas do Estado.
No discurso pronunciado na Festa do Pontal em Quarteira, há pouco mais de quatro meses, Passos Coelho garantira que a crise estava cada vez mais perto de acabar e que o ano de 2013 iria marcar um ponto de viragem para a economia nacional. “O próximo ano não será de recessão!», salientou, na ocasião, para aplauso da plateia. E reafirmou: “O ano de 2013 será de inversão na situação da atividade económica em Portugal. Estou muito confiante”.
Na mesma ocasião disse que “era importante controlar o défice e conseguimos fazê-lo, apesar das dificuldades. Era importante que não devêssemos mais ao exterior ao cabo de um ano, e isso também aconteceu”.
No entanto, o governo logo em seguida negociou com a troika a ampliação do objetivo do défice de 4,5% para 5% – e este último dificilmente será alcançado, segundo a Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO), mesmo com medidas extraordinárias como a privatização da ANA. Quanto à dívida pública, por alturas do “discurso do Pontal”, a previsão da própria troika era de que a dívida pública portuguesa iria chegar aos 118% do PIB em 2013; mas já no início de setembro fora alterada para 124% do PIB.