A pró-reitora da Universidade de Lisboa e especialista em financiamento do ensino superior, Luísa Cerdeira, aponta incorreções no relatório elaborado pelo FMI, defendendo que o documento “não tem qualquer fundamentação teórica ou prática” e que, “do ponto de vista técnico” parece ter sido concebido por “um aluno principiante de economia de educação, que, se calhar, nem teria boa nota".
A especialista em financiamento do ensino superior alerta para o facto de os valores relativos às despesas no Ensino Universitário Público avançados pelo FMI estarem errados, já que dizem respeito a todo o ensino superior, incluindo universidades e politécnicos.
No que concerne à proposta do Fundo que visa o aumento do valor das propinas, Luísa Cerdeira defende que está em causa uma verdadeira ameaça ao ensino superior. "Aquilo que é aconselhado pelo FMI é um grave perigo” que representa “tornar novamente o ensino superior em Portugal só para poucos ou só para os ricos".
Aumento de propinas "seria socialmente um desastre"
O reitor da Universidade de Coimbra (UC), João Gabriel Silva, também se insurge contra o aumento de propinas no ensino superior, sublinhando que "seria socialmente um desastre".
"Portugal continua a estar muito abaixo dos níveis europeus de qualificação superior", adverte, frisando que "não é, seguramente, sem qualificação" que o país "vai sair da crise".
Também o neurologista António Damásio defende que a educação de excelência de que necessita Portugal não se compadece com os cortes impostos pelo FMI. “Não é possível ter uma sociedade justa e com progresso se não houver excelente educação”, avançou.
Existem cada vez mais alunos que não conseguem pagar propinas
O número de alunos que não tem condições para pagar as suas propinas está a aumentar. Segundo noticia o Jornal de Notícias, na Universidade do Porto existem atualmente 1600 estudantes com propinas em atraso. Já na Universidade do Minho, 4000 alunos têm pagamentos por efetuar. Em Coimbra e no Algarve serão 2000 mil alunos, no total, nesta mesma situação. Se tivermos ainda em conta os 4177 estudantes da Universidade de Aveiro, obtemos um total de 15.000 alunos em risco de serem forçados a abandonar o ensino superior, o que equivale a 28% do universo de estudantes universitários.
De acordo com o estudo “Quanto Custa Estudar no Ensino Superior Português", coordenado por Luísa Cerdeira, da Universidade de Lisboa, tirar um curso superior custava, em 2011, uma média de 6.624 euros por ano, o que representa um aumento de 8,1 por cento em relação ao ano letivo de 2004/2005.
Há oito anos, o Estado gastava cerca de 4 mil euros por cada aluno, tendo essa verba diminuído para 3601 euros no ano passado. O contributo dos estudantes e das suas famílias foi 60 por cento mais elevado do que o esforço do Estado.
O aumento das propinas, que já ultrapassam os 1.000 euros no 1º ciclo e que, no 2º ciclo, não tendo um teto máximo, podem ascender a dezenas de milhares de euros, contribuem marcadamente para o encarecimento dos custos dos cursos superiores e, consequentemente, para o aumento do abandono escolar. No ano letivo de 2011/2012, mais de 7.000 estudantes cancelaram a sua matrícula por razões económicas.