Refugiados em desespero barricaram-se no Centro de Acolhimento

27 de agosto 2012 - 18:26

O Centro de Acolhimento de Refugiados da Bobadela está sobrelotado e os seus utentes temem pelo futuro. Esta segunda-feira, reagiram ao pedido para saírem do Centro barricando-se no interior das instalações. A polícia usou gás lacrimogéneo e prendeu alguns refugiados.

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Centro de Refugiados já acolhe mais do dobro da sua capacidade. Só nas últimas três semanas entraram 36 pessoas. Foto João Relvas/Lusa

"Vivem-se momentos de tensão junto da comunidade refugiada. O Centro está com 107 pessoas e temos uma sala de formação com quinze pessoas a dormir nos colchões", afirmou Teresa Tito de Morais, presidente do Conselho Português para os Refugiados, que estava presente na reunião com os utentes para discutir as dificuldades colocadas pela sobrelotação do espaço. "Só nas últimas três semanas chegaram 36 pessoas", refere Teresa Tito de Morais, o que indica que o apoio aos refugiados que chegam a Portugal é claramente insuficiente para o momento atual de crise.



O Centro de Acolhimento de Refugiados foi inaugurado em 2006 com uma capacidade anunciada de 34 pessoas e as obras efetuadas entretanto permitem acolher até 50 pessoas na Bobadela. Atualmente acolhe mais do dobro da capacidade instalada e a reunião desta segunda-feira procurava, segundo a presidente do CPR, convencer os utentes mais antigos, que têm o seu processo de acolhimento mais avançado, a abandonarem o centro e alugarem quartos, para dar lugar aos pedidos mais recentes.



Na Bobadela, os utentes mais antigos chegaram há menos de oito meses ao Centro e na proposta do CPR este processo de saída seria acompanhado por assistentes sociais, mas o apoio futuro aos refugiados só iria conseguir pagar a primeira renda mensal fora do Centro. "Eles sabem que ao sair do centro não têm garantias de apoios continuados", reconhece a presidente do CPR, sublinhando que "a população refugiada está com imenso receio do seu futuro" e "o desespero leva a situações de maior agressividade".



Os 80 utentes que se encontravam no centro sobrelotado protestaram contra a solução encontrada pelo CPR e um grupo fechou as portas das instalações, impedindo a entrada e saída de pessoas. A PSP foi chamada ao local e usou gás lacrimogéneo para forçar a entrada no Centro de Acolhimento e fazer a detenção de seis refugiados.



A responsável do CPR afirmou ainda que ninguém estava armado nem houve violência nem feridos durante a meia hora em que ficaram retidos, mas a PSP, citada pela Rádio Renascença, diz que há um refugiado e dois agentes feridos resultantes da intervenção policial.

Ano marcado por alertas para falta de meios do CPR

Em março passado, o CPR viu-se obrigado a suspender todos os apoios de emergência à população refugiada por falta de verbas. E apelou a todas as pessoas para participarem numa campanha de recolha de alimentos e artigos de primeira necessidade, algo que poderá fazer a diferença na resposta à crise, sem precedentes, que atravessa.

“Fizemos um apelo à sociedade civil para comparticipar com géneros alimentícios para que as pessoas não passem fome, em especial as crianças”, disse na altura Teresa Tito de Morais, apelando a um “reforço financeiro” de 150 mil euros por parte do Governo para fazer face à situação que, segundo explicou, “já se vem a acumular desde Novembro de 2011”. Desde esta data, “a Santa Casa da Misericórdia decidiu não mais receber pessoas que tinham autorização de residência provisória e, por outro lado, houve um aumento de pedidos de asilo, que não é alarmante”.

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