Reportagem em Atenas: faltam 6 dias

20 de janeiro 2015 - 15:28

Esta segunda-feira, visitámos uma clínica solidária, entrevistámos o dinamizador da rede Solidarity4All e assistimos a uma sessão de esclarecimento com a deputada do Syriza Zoe Konstantopoulou. Reportagem de Nuno Moniz e Catarina Príncipe.

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Clínica Solidária no centro de Atenas. Foto Catarina Príncipe.

“Uma solução necessária”

Passámos a manhã numa clínica solidária que faz parte da rede “Solidarity4All”. Por pura coincidência, o jornal “Público” publicou uma peça sobre a mesma clínica hoje [1] em que ilustra bem a situação. A Elena, uma das organizadoras da clínica, explicou-nos com detalhe o seu funcionamento: de onde vêm os medicamentos e os materiais, a necessidade da existência destes focos de solidariedade, as barreiras. Em breve teremos a entrevista finalizada onde isto é explicado com maior detalhe.

O sistema público de saúde funciona duma maneira complexa que pode ser resumida da seguinte maneira: grande parte das pessoas imigrantes e desempregadas não têm acesso. Isto é reforçado com um policiamento dos hospitais e clínicas públicas no sentido de impedir o tratamento de pessoas que não estejam cobertas pelo sistema público ou por seguros privados. Num país com uma taxa de desemprego à volta de 25% percebe-se rapidamente a envergadura do problema. Embora o Governo se tenha posicionado no sentido das pessoas não deverem aceitar tratamento nestas clínicas, ao contrário de outras geridas por ONG's conhecidas, já passaram e continuam a ser tratadas milhares de pessoas.

[caption]Armazém de medicamentos.[/caption]

Lançámos o desafio sobre o que esperam dos resultados do próximo Domingo. A resposta foi bastante simples: “Esperamos que o Syriza cumpra o seu programa para a saúde, porque é uma solução necessária para atacar este problema”. Na continuação, esperam que essa vitória signifique a não necessidade destes projectos através da reestruturação do Sistema Nacional de Saúde, mas que é importante que, independentemente disso, um Governo de Esquerda continue a apoiar as iniciativas de auto-organização.

Solidariedade: Uma plataforma popular

Na região de Ática são 114 os colectivos solidários. 55 cozinhas e espaços de troca alimentar sem intermediários, 12 clínicas sociais e farmácias e 37 cooperativas desde fábricas, jornais, rádios, entre outros, tudo auto-gestionado. “O movimento de solidariedade não é baseado em dinheiro”. Sobre a plataforma Solidarity4All, o Christos Giovanopoulos começou a conversa por aí. O seu objectivo não é caridade. O objectivo é ajudar o povo grego a viver com dignidade, com capacidade para lutar por um país diferente, melhor. A não remuneração aparece como princípio devido a uma reflexão simples: a sua existência muda a relação entre as pessoas, entre as que têm e as que não têm. O Syriza é uma das organizações que criou um fundo no sentido de financiar as necessidades para o funcionamento das organizações de solidariedade. Os seus representantes doam entre 10% e 20% do seu vencimento para esse fundo. Esta posição é assumida entre o Syriza e a plataforma como um apoio às iniciativas que são construídas de baixo para cima. Isto não significa que o Syriza seja quem define a linha das organizações, até porque o princípio da plataforma é a autonomia de cada iniciativa: as decisões são tomadas em assembleias abertas de cada uma das iniciativas, com todas as pessoas que fazem parte, desde os produtores, médicos e enfermeiros até aos pacientes e os utilizadores.

É importante perceber que os movimentos sociais entre 2010 e 2012 na Grécia não saíram de decisões cimeiras dum partido, tendo possibilitado trabalho conjunto entre activistas de percursos diferentes, desde dos que vêm de partidos de esquerda até aos movimentos anarquistas. E a força popular que se ganhou foi o que deu base e possibilitou a sua descentralização e a criação destes grupos auto-organizados de solidariedade. Agora, a novidade e o desafio será como lidar com um Governo “solidário” com essas iniciativas, dizem-nos.

Dignidade, Democracia, Justiça

Estes são os três princípios base da campanha eleitoral. E não são exclusivamente propagandísticos: são as "necessidades básicas" para recuperar a capacidade de luta e resistência nas lutas que se avizinham. Esta noite, numa sessão de esclarecimento com a deputada Zoe Konstantopoulou, várias pessoas da audiência pediram justiça por aquilo que consideram ser os crimes cometidos contra a sua vida.

[caption]Sessão com a Zoe Konstantopoulou (primeira da esquerda)[/caption]

Dignidade significa a restituição dos salários e pensões roubados e o restabelecimento das condições mínimas de vida (pão, habitação, saúde, educação). Democracia significa não só resgatar o parlamento das garras da Troika (e voltar a fazer dele um espaço de debate e de tomada de decisão democrática) como também estruturar e aprofundar as práticas de democracia participativa que tantas organizações populares têm vindo a desenvolver. Justiça é mais do que uma ideia moral; é uma proposta prática. Zoe Konstantopoulou explicou que um governo Syriza pretende estabelecer desde o início uma comissão de investigação para aferir os responsáveis pelos crimes cometidos pela austeridade - e eventualmente conseguir levar os responsáveis ao banco dos réus.

100.000 votos negados

Já tínhamos ouvido falar sobre a questão dos jovens que deveriam constar nos cadernos eleitorais mas que não acontecerá. O que sabemos agora é que desde de fim de Outubro que o Governo Nova Democracia/PASOK sabe que teria de tomar acção para que mais de 100.000 jovens pudessem votar, visto cumprirem todos os critérios para serem eleitores, mas que nada fez. Compreensível. Um estudo publicado hoje baseado na opinião dos alunos do Instituto Tecnológico de Atenas (são 26 mil no total) indica que metade dos alunos acredita que o seu voto será decisivo para as próximas eleições e o Syriza recolhe mais do dobro dos votos em comparação com o partido Nova Democracia.


[1]http://www.publico.pt/mundo/noticia/esta-crise-e-pior-que-a-guerra-a-guerra-sabiamos-que-ia-acabar-1682613