África

República Democrática do Congo: a paz inexistente

12 de outubro 2025 - 14:41

Trump gabou-se ter acabado com trinta anos de guerra. Mas o conflito continua, obrigando as populações civis, vítimas das atrocidades perpetradas por todos os lados, a tomar o caminho do exílio.

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Paul Martial

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Trump com os ministros dos Negócios Estrangeiros do Ruanda e do Congo.
Trump com os ministros dos Negócios Estrangeiros do Ruanda e do Congo. Foto da Casa Branca.

Desde o início que os observadores se mostraram cautelosos quanto ao fim do conflito através da implementação de dois processos de paz paralelos, mas intimamente ligados.

Dois Acordos de Paz

O primeiro, patrocinado pelos EUA, é um acordo entre a República Democrática do Congo e o Ruanda. Foi assinado a 27 de junho, mas, segundo as próprias partes interessadas, está atrasado, principalmente no que diz respeito à retirada das forças ruandesas do território congolês. A condição é que as Forças Armadas da RDC (FARDC) eliminem as FDLR, uma milícia composta por ex-genocidas cujo perigo o Ruanda sobrestima, considerando-a uma ameaça existencial.

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O segundo acordo ainda em discussão é o Acordo de Doha, desta vez entre a RDC e a milícia M23/AFC, fortemente apoiada pelo Ruanda. A milícia conquistou grande parte do território oriental do país, ocupando as principais cidades de Goma e Bukavu. As negociações estão estagnadas. As autoridades congolesas exigem a retoma da sua autoridade sobre todo o território, enquanto o M23/AFC discute a co-gestão da região. Embora o M23 tenha sido inicialmente uma rebelião estritamente militar, transformou-se numa força política com a adição da Aliança do Rio Congo (AFC), liderada por Corneille Nangaa.

Regime Paralelo

Esta milícia rapidamente instalou uma nova administração para gerir os territórios conquistados. Foram nomeados governadores, foram estabelecidos tribunais e foi recentemente criada uma força policial com a contratação de novos funcionários públicos. Os chefes tradicionais que se opunham a este novo poder foram marginalizados e, por vezes, eliminados fisicamente. A outra questão espinhosa é a desmobilização das forças do M23. Estes combatentes exigem a sua integração no exército. Tshisekedi, o presidente da RDC, recusa terminantemente, considerando que tal integração seria uma espada de Dâmocles para o seu regime.

Para travar a guerra contra o M23/AFC, o governo congolês tem-se apoiado fortemente em numerosas milícias que operam na região. Operam sob o nome genérico de Wazalendo (os patriotas em suaíli). Oficialmente, os seus membros têm o estatuto de "reserva de defesa armada". Na prática, os Wazalendo gozam de um elevado grau de independência e consideram-se não vinculados aos compromissos assumidos em Doha, pois estiveram ausentes das discussões. De facto, estes últimos solicitaram a participação nas reuniões, mas a recusa tanto do governo congolês como do M23/AFC fez com que as reivindicações dos grupos armados fossem ignoradas. Os primeiros confrontos entre as milícias Wazalendo e as FARDC já começaram a surgir. O mais recente ocorreu em Uvira, resultando na morte de cerca de dez pessoas.

Ao contrário do que Trump afirma quando diz ter posto fim a uma guerra de trinta anos, o conflito continua, obrigando as populações civis, vítimas de atrocidades perpetradas por todos os lados, a seguir o caminho do exílio.


Texto publicado originalmente no Afriques en lutte.