Realizaram-se cinco amplas meta análises de ensaios com produtos homeopáticos. Todas elas deram o mesmo resultado: após descartar os ensaios metodologicamente deficientes e tendo em conta os defeitos da publicação, a homeopatia não trouxe nenhum benefício estatisticamente significativo superior ao placebo1. Apesar de tudo, a homeopatia pode ser clinicamente útil. Durante a epidemia de cólera do século XIX, as taxas de mortalidade no Hospital Homeopático de Londres foram três vezes baixas mais do que as do Hospital de Middlesex2. O motivo do sucesso da homeopatia na dita epidemia é até mais interessante que o efeito placebo. Naquela época, ninguém sabia como tratar a cólera, e enquanto as terapias médicas como a sangria eram ativamente nocivas, os tratamentos homeopáticos eram pelo menos inertes.
De modo similar, a medicina moderna não tem nada a oferecer para afeções como a dor das costas, o stress no trabalho, os fenómenos de fadiga que a medicina não sabe explicar e a maioria dos resfriados comuns. Examina-se toda a panóplia de terapias médicas e provam-se todos os medicamentos da farmacopeia, a única coisa que se observará serão efeitos secundários. Nestas circunstâncias, uma pílula inerte parece uma opção razoável.
No entanto, do mesmo modo que a homeopatia tem vantagens inesperadas, também pode ter efeitos secundários imprevistos. O próprio ato de receitar uma pílula já acarreta os seus próprios riscos: medicalização, aumento de comportamentos patológicos contraproducentes e promoção da ideia de que uma pílula é uma resposta adequada para um problema social ou para uma doença viral moderada. De um modo similar, quando um profissional de saúde receita uma pílula que sabe que não é mais eficaz que um placebo e não diz ao paciente, então atenta tanto contra o consentimento informado como contra a autonomia do paciente. Pode-se alegar que este custo é aceitável, mas semelhante paternalismo obsoleto pode minar em última instância a relação entre médico e doente.
Também há efeitos nocivos mais concretos. Uma característica habitual das práticas de marketing dos homeopatas consiste em denegrir a medicina académica. Segundo um estudo, metade dos homeopatas interrogados aconselharam os pacientes a não vacinarem os filhos contra o sarampo, a papeira e a rubéola3. Uma reportagem de televisão revelou que quase todos os homeopatas consultados recomendaram meios profiláticos homeopáticos ineficazes contra a malária, desaconselhando as medidas preventivas médicas e sem oferecer nem sequer simples conselhos para a prevenção das picadas de mosquitos4.
Denegrir a medicina é uma sábia tática comercial do ponto de vista dos homeopatas, pois as sondagens de opinião mostram que uma experiência dececionante com a medicina académica é uma das poucas causas que se alegam regularmente para justificar a decisão de recorrer a terapias alternativas. No entanto, poderá não ser uma opção responsável, já que os homeopatas podem minar as campanhas de saúde pública, expor os seus pacientes a doenças letais e, no caso extremo, omitir diagnósticos graves. Também houve casos de pacientes que morreram depois de homeopatas com formação médica os aconselharem a abandonar um tratamento médico de uma doença grave5.
Todos estes problemas foram exacerbados pelo entusiasmo com que a sociedade aceita as promessas de cura dos homeopatas e pela ausência de uma cultura de autoavaliação crítica na medicina alternativa. O crédito nas publicações especializadas em terapias alternativas é elevado: no ano 2000, apenas 5 % dos estudos publicados em revistas de medicina complementar ou alternativa foram negativos6. Que eu saiba, as questões éticas em relação à autonomia do paciente e o placebo nunca foram rebatidos. Os homeopatas costumam responder às análises negativas com estudos positivos habilmente selecionados. Um estudo observacional7, que praticamente mais não é que um inquérito sobre a satisfação dos clientes, foi apresentado8 como se rebatesse um conjunto de ensaios clínicos aleatorizados.
Os homeopatas podem tergiversar facilmente as provas científicas perante um público confiado e carente de formação científica, mas ao fazê-lo minam a compreensão por parte do público do que significa basear um tratamento em conhecimentos provados. Esta posição torna-se ainda mais perniciosa num momento em que os académicos se esforçam, mais do que nunca, para conseguir que o público compreenda realmente a investigação científica9 e em que a maioria dos bons médicos procuram educar e implicar os seus pacientes na escolha dos tratamentos possíveis.
Todas as críticas que formulei poderão clarificar-se mediante um debate sincero e aberto sobre os problemas. No entanto, os homeopatas viraram as costas à medicina académica e com demasiada frequência contestaram a crítica fazendo caso omisso dela em vez de argumentar. A Sociedade dos Homeopatas (na Europa) inclusive ameaçou processar alguns blogueres10 e os professores universitários que ensinam medicina alternativa, a que me dirigi juntamente com outros, negaram-se rotundamente a facilitar informação básica sobre o que ensinam e como o fazem11. É difícil pensar em algo mais malsão do que isto.
Proibir a homeopatia seria ir demasiado longe, já que os placebos podem desempenhar uma função clínica. No entanto, enquanto não se abordarem estas questões éticas e estes efeitos secundários, é legítimo duvidar de que os homeopatas sejam os mais indicados para gerir o efeito placebo.
Artigo de Ben Goldacre, publicado a 16/11/2007 em badscience.net. Tradução para espanhol de vientosur.info. Tradução para português de Carlos Santos para esquerda.net
1 / Kleijnen J., Knipschild P., ter Riet G. Clinical trials of homoeopathy. BMJ 1991;
302: 316-323.
Boissel J.P., Cucherat M., Haugh M., Gauthier E.. Critical literature review on the effectiveness of homoeopathy: overview of data from homoeopathic medicine trials. Brussels, Belgium: Homoeopathic Medicine Research Group. Report to the European Commission. 1996: 195-210.
Linde K., Melchart D. Randomized controlled trials of individualized homeopathy: a state-of-the-art review. J Alter Complement Med 1998; 4: 371-388.
Cucherat M., Haugh M.C., Gooch M., Boissel J.P. Evidence of clinical efficacy of homeopathy: a meta-analysis of clinical trials. Eur J Clin Pharmacol 2000; 56: 27-33.
Shang A., Huwiler-Müntener K., Nartey L. y cols. Are the clinical effects of homoeopathy placebo effects? Comparative study of placebo-controlled trials of homoeopathy and allopathy. Lancet 2005; 366: 726-732.
2 Hempel S. The medical detective. London, UK: Granta Books, 2006.
3 Schmidt K., Ernst E. Aspects of MMR. BMJ 2002; 325: 597.
4 Jones M. Malaria advice “risks lives”. Newsnight, BBC2 July 13, 2006. news.bbc.co.uk/1/hi/programmes/newsnight/5178122.stm (visitado a 8/11/2007).
5 General Medical Council Fitness To Practise Panel. Dra. Marisa Viegas. 2007.
Sheldon T. Dutch doctor struck off for alternative care of actor dying of cancer. BMJ 2007; 335: 13.
6 Schmidt K., Pittler M., Ernst E. Bias in alternative medicine is still rife but is diminishing. BMJ 2001; 323: 1071.
7 Spence D.S., Thompson E.A., Barron S.J. Homeopathic treatment for chronic disease: a 6-year, university-hospital outpatient observational study. J Altern Complement Med 2005; 11: 793-798.
8 Grice E. Keep taking the arsenic. Daily Telegraph Nov 25, 2005.
9 Evans I., Thornton H., Chalmers I. Testing treatments: better research for better healthcare. London, UK: British Library, 2006.
10 Goldacre B. Threats, the homeopathic panacea. The Guardian 20/11/2007. www.guardian.co.uk/science/2... (visitado a 6/11/2007).
11 Giles J. Degrees in homeopathy slated as unscientific. Nature 2007;446: 352-353.