Seis erros da troika que levaram à “desestruturação da sociedade"

09 de janeiro 2014 - 12:40

"O programa [da troika] nasceu imbuído de seis erros maiores que têm muito a ver com o desconhecimento da realidade da economia portuguesa", avançou o presidente do Conselho Económico e Social, Silva Peneda.

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Segundo o representante do CES, o primeiro erro que justifica "o desfasamento" entre as metas previstas e o executado no âmbito do programa da troika em Portugal, e que teve como consequência "uma desestruturação da sociedade", prende-se com "uma inadequada caracterização da crise" por parte dos credores internacionais, que subestimaram os "profundos desequilíbrios estruturais" num país cuja economia assenta em pequenas e médias empresas "muito fortemente descapitalizadas".

Silva Peneda considera ainda que a troika "não teve em devida conta os elevados níveis de endividamento das empresas e das famílias".

O profundo impacto da redução da procura interna, mediante a diminuição do rendimento das famílias, sobre o crescimento e o emprego terá sido, por outro lado, e conforme avançou o presidente do CES, negligenciado pela troika.

A implementação de uma "reforma do Estado confinada à lógica da redução mais ou menos indiscriminada da despesa, focada nos cortes salariais dos funcionários públicos e na redução das reformas", também foi alvo de crítica por parte de Silva Peneda, que fez ainda referência à escassez do tempo para a execução do programa concedido pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia.

O governo e a troika optaram pela implementação, num reduzido espaço de tempo, "de um conjunto de medidas executadas de forma bruta e abrupta que se revelaram pouco eficazes, porque não asseguraram o mínimo de estabilidade e de coerência entre as diferentes políticas", referiu.

O representante do CES lembrou, durante a reunião na Comissão do Emprego e Assuntos Sociais, no Parlamento Europeu (PE), que Portugal iniciou o programa "com um desequilíbrio interno visível, não só no elevado défice público, mas também no próprio desemprego (na ordem dos 9%) e ainda um desequilíbrio externo elevado (com um défice de cerca de 10% do Produto Interno Bruto [PIB]".

"Estas são as razões que, na minha opinião, explicam que o resultado do programa se tenha materializado num sistemático desfasamento entre o previsto e o executado", mas "mais grave é que a execução do programa tem vindo a provocar uma preocupante desestruturação da sociedade, com o esbater duma classe média, tendência que, a manter-se, irá ter as mais graves consequências no funcionamento de uma economia social de mercado", frisou.

Silva Peneda acusou ainda a troika de promover a “desregulação do mercado de trabalho".