Jean Claude Trichet, ex-presidente do Banco Central Europeu e um dos principais responsáveis pelas políticas das troikas, reconheceu deficiências na gestão das crises mas escusou-se a pedir desculpas aos milhões das vítimas destes erros quando foi desafiado a fazê-lo pela eurodeputada Marisa Matias.
A eleita do Bloco de Esquerda integrada na Esquerda Unitária (GUE/NGL) do Parlamento Europeu lançou o desfio a Trichet durante uma audição da comissão parlamentar de Economia e Assuntos Monetários (ECON) no âmbito do inquérito às atividades da troika que esta tem vindo a promover e que já se decorreu também em Portugal.
Marisa Matias começou a sua intervenção lembrando a coincidência homófona entre o nome do ex-presidente do BCE – Trichet – e o dom por ele revelado (“tricher”, fazer batota em francês), que viria a confirmar nos minutos seguintes, confrontando-o depois com as contradições e práticas que conduziram à situação atual.
A eleita do Bloco de Esquerda recordou que foi durante o mandato de Trichet que as troikas entraram em vigor e foi também que em 2011, quando as economias europeias deram alguns sinais de recuperação, que o Banco Central Europeu a que ele presidia decidiu aumentar por duas vezes as taxas de juro “por causa de uma obsessão com uma inflação mais conjuntural que estrutural”.
Ora “se não havia modelos económicos que permitissem prever a crise”, como argumentara Trichet na sua intervenção, “todos os modelos económicos dizem que aumentar os juros nessa altura seria o caminho para a recessão e o contágio”, afirmou Marisa Matias. Foram esses erros, prosseguiu “que produziram um avassalador aumento de desemprego e a recessão”, situação que continua “sem nenhum sinal de esperança para as vítimas da crise”.
A eurodeputada recordou que ainda recentemente o ex-presidente da Reserva Federal norte-americana, Alan Greenspan, pediu desculpas públicas, em livro, às vítimas dos erros que conduziram à crise nos Estados Unidos. A partir desse exemplo e “reconhecendo esses erros, sentindo que não há recuperação económica, que o desemprego alastrou, tal como a desigualdades”, Marisa Matias desafiou Jean Claude Trichet “a pedir desculpas aos povos europeus pelos erros cometidos nessa altura”.
O ex-presidente do BCE adoptou um silêncio ostensivo perante o assunto. Preferiu lançar culpas sobre os governos por não terem alegadamente respeitado o Plano de Estabilidade e Crescimento (PEC) afirmando que ele próprio advertira desde 2005 que “os indicadores sobre divergências de competitividade eram dramáticos”.
Trichet culpou sobretudo as administrações públicas dos países do euro porque, segundo as suas contas, desde o início da moeda única e até fim de 2009 os salários desses setores cresceram 117% em alguns casos e 35% em média. De acordo com o ex-presidente do BCE, foram os executivos da Zona Euro “que não governaram corretamente e não acompanharam da melhor maneira os indicadores económicos”. Os desequilíbrios em termos “de competitividade” representavam “um enorme problema”, disse, “e devíamos tê-lo evitado ,mas era muito complicado”, acrescentou sem mais porquês.
Segundo Trichet, “estamos na pior crise desde a Segunda Guerra Mundial e ainda não saímos dela”. Mas se não tivessem sido adoptadas as medidas que geraram a situação atual, acrescentou, a depressão poderia ser a maior desse a Primeira Guerra Mundial. Quanto à maneira deficiente como as instituições europeias lideram com a crise, como admitiu em passagens das suas respostas, o ex-presidente do BCE declarou que a situação na Grécia decorreu “de um problema sistémico” que contagiou outros países como Portugal e Chipre.
O inquérito à troika em curso, que supostamente deveria concretizar uma posição do Parlamento Europeu sobre os comportamentos da troika, é apresentado quinta-feira aos eurodeputados mas não será sujeito a votação, ficando assim por cumprir “o dever de escrutínio democrático” invocado pela ECON quando a iniciativa foi lançada.
Artigo publicado no portal do Bloco no Parlamento Europeu.