Cada vez mais doenças são afetadas pela resistência, um fenómeno que se dá quando as bactérias não podem ser mortas, mesmo que diferentes medicamentos tenham sido ministrados a alguns pacientes, que sucumbem. Isso gera a perspetiva sombria de um futuro em que os antibióticos já não funcionam e muitos de nós, ou dos nossos filhos, não vão conseguir resistir a doenças como tuberculose, cólera, formas mortais de desinteria e germes contraídos durante cirurgias.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) vai discutir o tema em maio, na sua assembleia anual de ministros da saúde. A agenda inclui o debate de um plano global de ação contra a resistência microbiana. Em momentos anteriores, houve diversas resoluções a esse respeito, mas pouca ação. Este ano pode ser diferente, porque países como o Reino Unido estão convencidos de que anos de inatividade tornaram o problema cada vez mais grave.
“As nossas descobertas são simples: estamos a perder a batalha contra as doenças infecciosas.
A Chatham House, uma organização internacional sediada no Reino Unido, foi local de duas reuniões recentes a esse respeito: uma em outubro e outra no mês passado (co-organizada pelo Geneva Graduate Institute). Ambas foram presididas pela Diretora Geral de Saúde da Inglaterra, a professora Dame Sally Davies, que transformou a resistência a antibióticos numa campanha emergente. Num livro recente, “The Drugs Don’t Work” (“Os remédios não funcionam”), revelou que o seu relatório anual sobre a saúde focou-se, em 2012, em doenças infecciosas.
“As nossas descobertas são simples: estamos a perder a batalha contra as doenças infecciosas. As bactérias estão a reagir e a tornar-se resistentes à medicina moderna. Para resumir: os remédios não funcionam.”Davies lembrou que os antibióticos adicionaram em média vinte anos à expectativa de vida dos seres humanos e que, por mais de setenta anos, permitiram-nos sobreviver a infeções e cirurgias que ameaçavam a nossa vida. Contudo, “a verdade é que temos abusado deles como pacientes, médicos, viajantes e na nossa comida”, diz no seu livro.
Davies prossegue: “Nenhuma classe de antibióticos foi descoberta nos últimos 26 anos e os micróbios estão a contra-atacar. Em poucas décadas, poderemos começar a morrer por cirurgias mais comuns e por doenças que hoje podem ser tratadas facilmente.”
“Nenhuma classe de antibióticos foi descoberta nos últimos 26 anos e os micróbios estão a contra-atacar.
Nas duas reuniões da Chatham House, às quais compareci, diferentes aspetos da crise e das possíveis ações foram discutidas. Numa das sessões, fiz um sumário das ações necessárias, incluindo:
> Mais investigação científica sobre como a resistência é causada e se espalha, incluindo a emergência de genes resistentes a antibióticos como no caso do NDM-1 [cuja ação é explicada mais adiante].
> Pesquisas em todos os países para determinar os níveis da resistência a antibióticos e bactérias que causam várias doenças.
> Diretrizes e regulações de saúde em todos os países para orientar os médicos sobre quando (e quando não) prescrever antibióticos.
> Regulamentações para indústrias de drogas sobre marketing ético dos seus remédios, para evitar que promoções de venda dirigidas a médicos ou ao público levem a um uso elevado e desnecessário.
> Educar o público a usar antibióticos apropriadamente, incluindo informações sobre quando não devem ser usados.
> Banir o uso de antibióticos na alimentação animal (com o propósito de obter crescimento acelerado). Restringir o uso em animais apenas para doenças de risco.
> Promover o desenvolvimento de novos antibióticos e criar mecanismos (inclusive financeiros) que não tornem as novas drogas propriedade exclusiva das indústrias farmacêuticas.
> Assegurar que pessoas pobres também tenham acesso aos novos remédios.
Quanto ao primeiro ponto, um facto novo e alarmante foi a descoberta de um gene, conhecido como NDM-1, que tem a habilidade de alterar a bactéria e fazê-la altamente resistente a qualquer droga conhecida.
Em 2010, só se localizou a presença do gene NDM-1 (detetado em 2006) em dois tipos de bactérias — E. coli e pneumonia Klebsiella. Mas descobriu-se que este gene pode facilmente saltar de uma espécie de bactéria para o outro. Em maio de 2011, cientistas da Universidade de Cardiff(Reino Unido), que fizeram os primeiros relatos sobre a existência da NDM-1, descobriram que este gene espalhou-se para vinte espécies de bactérias.
Um facto novo e alarmante foi a descoberta de um gene, conhecido como NDM-1, que tem a habilidade de alterar a bactéria e fazê-la altamente resistente a qualquer droga conhecida.
Também em maio de 2011, houve um surto de uma doença mortal, causada por uma nova cepa da bactéria E. coli, que matou mais de vinte pessoas e afetou outras duas mil na Alemanha. Apesar de a E. coli “normal” produzir doenças suaves de estômago, este novo tipo causa diarreia com sangue e dores de estômago severas. Em casos mais sérios, atinge as células sanguíneas e os rins.
A tuberculose é outra doença que está a regressar de forma agravada. Em 2011, a Organização Mundial de Saúde (OMS) descobriu que meio milhão de novos casos no mundo eram do tipo resistente a múltiplas drogas (MDR-TB), significando que não poderiam ser tratados pela maior parte dos remédios. Além disso, em torno de 9% das tuberculoses resistentes a drogas múltiplas também têm resistência a duas outras classes de remédios. São conhecidas como tuberculoses extensivamente resistentes a drogas (XDR-TB). Pacientes com XDR-TB não podem ser tratados com sucesso.
Investigadores também descobriram que, no sudeste da Ásia, cepas de malária estão a tornar-se resistentes a tratamentos. Em 2012, a diretora-geral da OMS, Margaret Chan, alertou que todos os antibióticos já produzidos até hoje estão a correr o risco de se tornarem inúteis.
A Assembleia Mundial de Saúde, convocada para o próximo mês, é uma oportunidade que não pode ser perdida para finalmente lançar um plano de ação global para resolver esta crise.
Tradução de Gabriela Leite para o Outras Palavras