De acordo com os organizadores, as greves atingiram cem cidades, com centenas de trabalhadores a saírem do trabalho (a greve do mês passado atraiu 160). Os organizadores dizem ainda que atingiram o objectivo de um total de mil protestos, havendo pelo menos um protesto em cada Estado com a exceção de quatro. Durante o processo, intensificaram o protesto contra a empresa que fez mais do que qualquer uma outra para frustrar as ambições e minar os feitos do trabalho organizado nos Estados Unidos (EUA).
“Estou tão contente por isto ser história, por os meus netos poderem aprender a defenderem-se a si próprios,” disse ao The Nation a grevista em Miami, Elaine Rozier, na Quinta-feira à noite. Antes, “Fiquei sempre na minha sem dizer nada... esta noite estou orgulhosa de mim própria.”
Rozier e os seus colegas iniciaram a greve da Sexta-Feira Negra [1] por volta das 19h30 (Hora Leste) de Quinta-feira; espalhou-se de Miami para as grandes cidades como Chicago e pequenas como Tulsa, onde o repositor de stocks do turno da noite, Christopher Bentrly Owen, animado por uma “audiência captiva” intimidante, decidiu juntar-se à organização no último minuto e tornou-se no único grevista da sua loja. Depois de recusar porque não planeava ficar com este emprego muito tempo, disse Owen, reconhecee que milhões de outros trabalhadores de baixos salários deram a mesma razão para não se envolverem. “Entretanto,” acrescentou, “há milhões de pessoas nestes empregos... a certa altura, as pessoas têm de se juntar.”
Pelas 9h de Sexta-feira, a Walmart já tinha publicado uma declaração a anunciar “os melhores eventos de sempre durante a Sexta-feira Negra”, afirmando que apenas 50 trabalhadores estavam em greve e denunciando a acção como um falhanço. Os organizadores acusaram a Walmart de fabricar números e salientou que os esforços agressivos da empresa para desencorajar a participação sabotavam a sua suposta indiferença.
A greve de Sexta-feira Negra chegou um ano e meio depois de os trabalhadores do sector retalhista anunciarem a fundação de um novo grupo empregador, OUR Walmart, cinco meses depois de trabalhadores convidados atingirem um fornecer de marisco e sete semanas depois da primeira greve coordenada nas lojas da Walmart. A grevista Cindy Murray, uma veterana da campanha da última década, mal sucedida e apoiada pelo sindicato contra a Walmart, disse que depois da eleição de 2008 “tinha de fazer alguma coisa diferente.” (Com certeza que greves contra a Walmart são algo diferente!) Murray afirmou que OUR Walmart tem tido mais sucesso porque os trabalhadores vêem-na como “a sua organização,” então “finalmente disseram, talvez possamos ser salvos. Talvez possamos falar abertamente.”
Murray ajudou a liderar a marcha de Sexta-feira de manhã, que envolveu mais de 400 trabalhadores e activistas, até Hanover, Maryland, onde está o Walmart do centro comercial Capital Plaza. Os cânticos incluiam “De quem é o Walmart? O Walmart é nosso!” e “Resiste! Vive Melhor!” No início da parte do parque de estacionamento do centro controlada pela Walmart, os líderes do Empregos com Justiça pediram ao gerente para se comprometer a não punir os trabalhadores grevistas; dizem que declarou que a Walmart não irá retaliar, que nunca o faz, e negou que o aviso de um dos vice-presidentes sobre as potenciais “consequências” fosse uma ameaça.
Questionado sobre se a retaliação seria pior antes de ser melhor, o director de organização do sindicato United Food & Commercial Workers (UFCW), Pat O'Neill considerou ser “uma possibilidade realista” e disse que “seria um erro. Penso que os trabalhadores estão a mostrar que não vão ser silenciados.”
Retaliação foi um tema presente durante o dia: a raiva que levou alguns do trabalhadores a fazer greve, a ameaça que levou muitos mais a ir trabalhar, a concentração nas exigências dos trabalhadores e a questão pendente para a próxima semana. As alegações de retaliação ilícita deram aos trabalhadores uma maior protecção legal para fazerem greve; destruir qualquer sentimento de segurança sobre aderir à greve pode ter sido a maior motivação para o Conselho sobre Trabalho da Walmart acusar as greves de serem elas próprias ilegais. A táctica da Walmart durante a semana passada poderá ter consequências: os organizadores disseram que cem trabalhadores de loja na área da cidade de Washington fizeram greve durante a semana, mas não mais do que uma dúzia durante a Sexta-feira Negra (atribuíram isto ao facto de os trabalhadores quererem causar mais perturbações enquanto os produtos estavam a ser descarregados). Em Paramount, Califórnia, a grevista Maria Elena Jefferson disse que alguns dos seus colegas não faziam greve porque “pensam que nunca poderão ganhar” e “não queriam perder os seus empregos.” Acrescentou que esperava que as acções de hoje – incluindo um comício de mais de mil apoiantes – os fizessem mudar de ideias.
O comício em Paramount incluía a única acção de desobediência civil planeada, três trabalhadores e seis outros apoiantes foram presos por bloquearem o Boulevard Lakewood. Outras acções foram mais comuns pelo país fora, incluindo jogos de luz subversivos e flash mobs.
Depois do comício, os manifestantes de Maryland dividiram-se em dois grupos: um maior que distribuiu panfletos enquanto cantavam músicas de Natal numa loja em Laurel e um grupo mais pequeno de activistas comunitários que se dirigiram a Severn. Aí, cerca de 50 pessoas passaram rapidamente à secção de jardinagem, na parte da frente da loja, e lançaram uma acção de microfone repetindo bem alto o que uma organizadora do Empregos com Justiça lia num discurso preparado: “Apelamos à Walmart para mudar. Apelamos à Walmart para para de fazer bullying.” Depois de terem sido avisados pela polícia, o grupo saiu cantando “Voltaremos.”
O comício de Maryland, como toda a campanha, tinha ligações estreitas com o UFCW; a maioria dos marchantes chegou em meia dúzia de autocarros que partiram da sede local do UFCW. Felicia Miller, membro do sindicato que trabalha no Safeway, disse ao The Nation que a Walmart está a diminuir os níveis de qualidade para os novos trabalhadores na sua loja. “Os jovens e novos trabalhadores chegam, os salários são uma porcaria por causa da Walmart... e porque as nossas empresas dizem, 'se a Walmart pode fazê-lo, por que não podemos nós?’ ” Afirmou ainda que a visão sobre os trabalhadores da Walmart a fazerem greve era “fantástica. Estou aqui para apoiá-los até ao fim.”
Embora alguns observadores já estejam a criticar a greve por falhar em obrigar a Walmart a ceder, activistas e organizadores têm vindo a falar da mesma como um avanço e não como um clímax. Enquanto isso, nos piquetes de Quinta e Sexta-feira, os trabalhadores já falavam de voltar a fazer greve, e esperam que a coragem demonstrada nesta acção faça juntar mais trabalhadores à próxima. “Haverão mais dias em que faremos greve,” disse Rozier ontem à noite, “e não vamos parar. Não vou parar até eles nos respeitarem e nos derem os que queremos.” Isto está de acordo com a promessa de Dan Schlademan do UFCW feita no início deste mês: “Este é uma nova realidade permanente para a Walmart... 2012 é o início da época em que os trabalhadores do retalho vão começar a erguer-se.”
Esta manhã, enquanto marchava em direcção ao Walmart de Hanover, o ex-organizador do SEIU, Stephen Lerner, deu crédito à campanha mostrando que os trabalhadores, através do uso estratégico das greves, “podem participar em acções que tanto os fazem sentir poderosos como atingem a empresa, e não precisam de esperar a vida toda por algum processo (o Conselho Nacional de Relações Laborais) para demonstrarem que querem um sindicato.” Lerner, o arquitecto da campanha Justiça para os Contínuos, acrescentou, “O que eles estão a mostrar é que estão a agir como um sindicato.”
Às 21h Hora Leste, Sexta-feira, a última acção do dia, um piquete em San Leandro, Califórnia, com um dragão fantoche e uma “banda de libertação,” terminou. Três trabalhadores que foram presos durante a tarde chegaram a casa em segurança. Amanhã, os grevistas da Walmart regressarão ao trabalho, com uma excepção: um trabalhador de San Leandro que queria fazer greve mais estava de folga na Quinta e Sexta-feira. Ela vai fazer greve amanhã.
Actualização: (18h45, Segunda-feira, 26 de Novembro): de acordo com um porta-voz do Fazer a Mudança no Walmart, mais de 500 trabalhadores fizeram greve.
Muita desta informação surgiu originalmente no meu blogue Black Friday live blog para o The Nation.
Tradução de Sofia Gomes.
[1] Neste caso, Sexta-feira Negra (Black Friday) é a expressão utilizada para o dia seguinte ao Dia de Acção de Graças durante o qual se dá início ao período de compras de Natal e é geralmente muito congestionado.