O governo de conservadores e socialistas gregos continua a aplicar medidas para destruir o emprego e enfraquecer os serviços públicos. Tal como a "requalificação" aprovada em Portugal por Passos Coelho e Paulo Portas - que o Tribunal Constitucional irá decidir em setembro - o esquema da "mobilidade" na função pública grega obedece ao mesmo propósito: despedir muito e depressa para cortar na despesa com salários, enquanto a dos juros não para de aumentar.
Já em setembro, o governo grego deverá anunciar os 12500 nomes de funcionários que irão para a mobilidade com apenas uma parte do salário. E ao fim de oito meses sem colocação, serão despedidos.
Para conseguir o objetivo, o governo de Samaras já começou o trabalho durante o verão, contornando a proteção laboral dos funcionários através da extinção de departamentos inteiros, como o das polícias municipais e dos vigilantes das escolas. Ao todo, cerca de 5500 polícias e vigilantes escolares tornaram-se excedentários de um dia para o outro e prováveis alvos da mobilidade em setembro. Nas previsões do governo, os funcionários afetos aos ministérios da Saúde e da Educação serão os mais atingidos pelo esquema da mobilidade.
Novo resgate e dívida sempre a aumentar
Com o futuro da Grécia em debate nas eleições alemãs, o ministro das Finanças Yannis Stournaras vê nos despedimentos na função pública um passo importante para mostrar que o governo leva a sério os compromissos com a troika, e assim facilitar um terceiro resgate no valor de 10 mil milhões de euros. De Berlim veio a resposta do homólogo Wolfgang Schaeuble, que diz ser inevitável o novo resgate, mas sem nenhum corte na dívida existente.
No domingo, um dirigente do Banco Central Europeu de visita a Atenas afirmou à imprensa estar certo que "a dívida grega irá crescer nos próximos anos e o regresso aos mercados será um desafio". No dia seguinte, o BCE veio retificar as palavras do seu dirigente, garantindo que na versão inglesa da entrevista, Joerg Asmussen afirmara que "a dívida manter-se-á elevada" e não que iria crescer ainda mais.
Entretanto, o terceiro resgate da troika faz parte da campanha eleitoral alemã, com Merkel e Schauble a aproveitarem a onda populista liderada pela imprensa sensacionalista, que defende a palavra de ordem "nem mais um cêntimo para a Grécia". Os conservadores alemães multiplicam-se em declarações contra um corte na atual dívida grega e a favor das "reformas" que levaram o país ao colapso económico.
Com a retórica do "castigo" aos gregos a render votos, a CDU alemã não diz aos eleitores que é a Alemanha que mais tem beneficiado com a crise grega e da moeda única, tendo ganho mais de 40 mil milhões de euros nos últimos anos, graças à crescente procura de refúgio por parte dos especuladores internacionais, que preferem pagar para comprar obrigações alemãs em vez de investir na dívida dos países que ajudaram a afundar.
Troika quer tomar conta das privatizações na Grécia
Um documento confidencial divulgado pelo jornal Proto Thema confirma as intenções da troika em gerir as futuras privatizações na Grécia. Para os dirigentes do Mecanismo de Estabilidade Europeu, devem ser os credores a decidir o que deve ser vendido para abater a uma dívida em rota ascendente. Segundo afirma o blogue Keep Talking Greece, trata-se de uma reedição do Treuhandanstalt - a agência que privatizou as empresas da Alemanha de Leste após a reunificação de 1990.
Esta terça-feira, o presidente da Federação da Indústria Alemã veio a público defender que o património do Estado grego deveria ser usado para abater à dívida, entregando-o ao Mecanismo de Estabilidade Europeu para que este procedesse à sua venda a privados. "Na Grécia há património nacional no valor de várias centenas de milhares de milhões de euros; é o caso, por exemplo, de empresas do setor da energia, portos, aeroportos ou imobiliárias", afirmou Ulrich Grillo