Em entrevista à agência Lusa, António Sampaio da Nóvoa considera que, passados três anos de governação sob a troika, Portugal fica um país mais pobre, mais desigual e com uma escola mais frágil.
“Vamos ter um país com mais fraturas e vamos ter de retomar um caminho de investimento na educação, no conhecimento, na cultura e na ciência, que foi interrompido ao longo destes anos”, diz Sampaio da Nóvoa.
O ex-reitor da Universidade de Lisboa refere que “houve uma enorme redução das despesas. O PIB para a educação desceu a níveis de há 20 anos atrás” e defende que “precisamos de olhar para o futuro e não de olhar para o passado, precisamos de uma escola de futuro e não de uma escola do antigamente, precisamos de uma escola que promova as aprendizagens, que esteja ligada à revolução digital que hoje está a acontecer no mundo”.
Sampaio da Nóvoa preconiza “uma escola da inteligência, da criação, da relação das redes”, da comunicação e defende uma escola de inclusão e diversidade, que a todos leve o conhecimento. “Se não percebermos isto, não conseguiremos essa mudança de fase, de ciclo histórico em Portugal. Não conseguiremos libertar-nos desta espécie de destino”, destaca.
“Vamos ter um país com mais fraturas e vamos ter de retomar um caminho de investimento na educação, no conhecimento, na cultura e na ciência, que foi interrompido ao longo destes anos”, diz Sampaio da Nóvoa
No Ensino Superior, Sampaio da Nóvoa considera que “praticamente não aconteceu nada” e sublinha: “Ao fim de três anos, o balanço é zero, não aconteceu nada de significativo e julgo que, ao não acontecer nada de significativo num momento tão crucial, isso representa um retrocesso enorme para Portugal”.
O académico salienta que foram feitos “cortes cegos”, enquanto se prepara ainda a anunciada reorganização da rede de instituições de Ensino Superior, refere que há uma dificuldade cada vez maior em manter a qualidade e os estudantes no sistema, sobretudo ao nível dos mestrados, frisando que os resultados das políticas de hoje só poderão ser verdadeiramente avaliados dentro de uma década.
António Sampaio da Nóvoa alerta também para a dificuldade de renovar o corpo docente, o que considera ser um dos grandes dramas do Ensino Superior atualmente. “Estamos a ter um corpo extraordinariamente envelhecido, não estamos a ser capazes de o renovar e isso, a prazo, é a morte das instituições”, destaca.
“Creio que, em muitos casos, o que estamos a assistir é a uma política de cortes cegos, a uma incapacidade de definir prioridades, de hierarquizar o que deve ser apoiado e o que deve desaparecer e é esta dificuldade que tem marcado esta governação”, declara o especialista em Ciências da Educação.
O ex-reitor da Universidade de Lisboa sublinha: “Precisamos de olhar para o futuro e não de olhar para o passado, precisamos de uma escola de futuro e não de uma escola do antigamente, precisamos de uma escola que promova as aprendizagens, que esteja ligada à revolução digital que hoje está a acontecer no mundo”
Desafiado pela Lusa a sugerir uma obra ao Governo, Sampaio da Nóvoa recomenda “O Reino do Erro”, de Diane Ravich, um livro recentemente editado por uma das principais assessoras do governo de George de Bush, que o ministro da Educação, Nuno Crato, “costuma citar”.
No livro, a autora, “explica como todas as políticas que estiveram na base da era Bush, e que em grande parte inspiraram o atual Governo - as políticas de privatização, dos exames, as políticas de empregabilidade, do ensino profissional dual – estavam erradas”, diz o académico.
Sampaio da Nóvoa sublinha que “foram políticas que contribuíram para a corrosão da escola pública norte-americana e de uma escola de inclusão, de integração e de diversidade” e realça:
“Na medida em que esta senhora esteve ligada a estas políticas durante muitos anos, tem hoje uma autoridade que se calhar outras pessoas não teriam ao fazer a sua própria ´mea culpa´, ao fazer um diagnóstico do que foram essas medidas, que infelizmente é o que está na matriz da orientação da política educativa em Portugal”.