Os governos do planeta escolheram confiar a presidência do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) ao sul-coreano Hoesung Lee, um economista especializado em assuntos energéticos e que já era um dos três vice-presidentes do grupo de peritos.
O curriculum vitae do novo presidente é eloquente: ele trabalhou três anos para a gigante petrolífera Exxon, três anos para a Hyundai, é presidente do Conselho Consultivo do Banco de Desenvolvimento Asiático e membro do conselho diretivo do Global Green Growth Institute – um organismo que colabora com o Banco Mundial na preparação dos planos para o crescimento verde (sic) da China e de outros países em desenvolvimento.
Hoesung Lee fez a sua campanha prometendo, “para melhorar a relevância e a neutralidade (do IPCC), de incorporar os contributos do mundo dos negócios, da indústria e da finança, através dos quais as mensagens das comunidades científicas são interpretadas e transformadas em atos”.
Nesta frase, o termo “neutralidade” não é usado por acaso: para Hoesung Lee, a economia é uma Ciência (com C maiúsculo), o que significa que a lei do lucro não é mais contestável, no seu entender, que a da gravidade. Durante a sua primeira conferência de imprensa como presidente, ele explicou como a decisão de dar um preço ao carbono não é de todo política, mas estritamente científica, dado que decorre de estudos económicos. Amen.
A eleição para a liderança do IPCC de um economista adepto do capitalismo verde, ligado aos lóbis do petróleo, do automóvel e da finança, só surpreendeu os ingénuos. Enquanto os governos de todo o mundo preparam para a COP21 um acordo feito à medida das multinacionais e que apenas fará – no melhor dos casos! – abrandar a catástrofe, o sul-coreano foi sem dúvida o candidato mais adequado para absolver o crescimento e elaborar um escudo pseudocientífico face ao crime climático capitalista.
Daniel Tanuro, engenheiro agrónomo belga, é um dos defensores da corrente ecosocialista, que tem refletido sobre a crise climática e o processo de acumulação do capital na sociedade de hoje. É o autor de O Impossível Capitalismo Verde. Artigo publicado no portal Europe Solidaire Sans Frontières. Tradução de Luís Branco para o esquerda.net.