O Bloco de Esquerda pretende suspender a reforma das urgências que o governo está a fazer na Grande Lisboa, acusando-a de ser uma reorganização a “trouxe-mouxe”, sem justificação cabal nem planificação conhecida, “mas onde a reorganização vai acontecendo, sem que seja devidamente discutida, conhecida, envolvendo as populações, os profissionais, os utentes e as instituições”. Em alternativa, propõe uma discussão com "cabeça, tronco e membros" sobre a matéria, deixando, até que ela seja feita, sem alterações as urgências de Lisboa e Vale do Tejo. É este o resumo do projeto de resolução que será discutido esta quarta-feira na Assembleia da República.
No final de uma visita ao hospital Garcia de Orta, em Almada, João Semedo afirmou que há uma crise nas urgências que é particularmente evidente nos grandes centros urbanos.
"Não achamos correto que se tire profissionais onde eles tanta falta fazem para colocar noutros hospitais onde há número de profissionais suficiente", apontou o coordenador do Bloco de Esquerda.
Quando adoecem, só têm os hospitais para se dirigir
Para Semedo, o governo é "duplamente responsável" pela crise nas urgências, seja pela redução de equipas e horários de trabalho de profissionais, seja porque fomentou a "aposentação antecipada dos médicos".
Mas é responsável também porque “ao limitar o orçamento e reduzir os horários dos centros de saúde, as pessoas quando adoecem num grande centro urbano só têm os hospitais para se dirigir. E é por isso que todos os dias milhares de pessoas acorrem às urgências, quando, em muitas situações, quase 46% dessas pessoas podiam ser atendidas nas urgências básicas, que não existem onde há urgências hospitalares”.
O médico e coordenador do Bloco lembrou também que o governo quer construir o que pomposamente chama de urgência metropolitana de Lisboa. “Isso significa resolver os problemas dos hospitais de Lisboa à custa dos hospitais da periferia, como é o caso do Garcia da horta, do Amadora-Sintra, do Hospital de Cascais e de Vila Franca de Xira. Nós recusamos esse modelo de urgência”.
Decisões inexplicáveis
No projeto de resolução, o Bloco de Esquerda recomenda ao governo a apresentação de uma planificação credível sobre a reforma das urgências na grande Lisboa, considerando que “têm sido tomadas decisões inexplicáveis à luz do rigor, do bom senso e da boa gestão da «res publica»”.
Diz o projeto: “Este Governo tem sido prolífico na produção de relatórios inconsequentes; mas, enquanto os cães ladram a caravana passa, ou seja, de relatório em relatório, de consultora em consultora, vão-se fechando serviços e valências, desmantelando unidades, encerrando hospitais ou transferindo profissionais”, prevendo que, a continuar assim, “no final, nada estará como antes e tudo estará pior para os utentes”.