Cenas da vida infernal na Turquia após o sismo

18 de February 2023 - 14:24

Erdogan tenta encobrir a incompetência do seu governo, dizendo que esta é a maior "catástrofe do século" e que ninguém poderia tê-la previsto ou tomado medidas eficazes. Na realidade, esta catástrofe é nada mais nada menos que o próprio Erdogan. Por Ragıp Duran.

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Foto Lisa Hastert/EU Civil Protection and Humanitarian Aid/Flickr

Já enfraquecido e isolado pela crise económica e em queda livre nas sondagens, Erdogan demonstrou a sua incompetência na gestão da crise sísmica, que causou a morte de quase 200.000 pessoas, segundo estimativas baseadas no número de pessoas ainda sob os escombros (já foram contabilizadas oficialmente 37.000 mortes)

Ele quer fazer tudo sozinho. É por isso que proibiu o exército de intervir nos primeiros momentos dos esforços de socorro: custe o que custar, o exército não deve restaurar a sua imagem porque se o fizer "poderá mesmo provocar um golpe de Estado". Contudo, a intervenção de tropas no terreno, especialmente nas primeiras horas cruciais do terramoto, poderia ter salvado milhares de vítimas.

Ele impediu e bloqueou também todas as ONG (com a única exceção das que são próximas do Palácio) de organizar a solidariedade, nomeadamente a recolha de ajuda material e financeira, bem como o trabalho de salvamento das vítimas enterradas sob os edifícios destruídos. Segundo ele, apenas a AFAD (organização oficial de ajuda humanitária) deveria ser autorizada a organizar a ajuda humanitária. No entanto, esta organização é dirigida por pessoas próximas do poder e que não têm competência na matéria: o seu presidente é um teólogo que passou toda a sua carreira na Diyanet, o organismo oficial responsável pelos assuntos religiosos. A única intervenção pública deste triste indivíduo durante todo o processo foi uma declaração que usou como desculpa a dimensão do terramoto e as condições meteorológicas como motivo para a paralisia quase total da AFAD durante os primeiros dias.

Muitos observadores constataram que os responsáveis oficiais enviados para o terreno - até os ministros - estavam relutantes em tomar as iniciativas necessárias por receio de serem repreendidos mais tarde pelo Presidente da República.

Os ministros em questão também tomaram nota da assistência maciça prestada no terreno por equipas de municípios liderados pela oposição, em especial os poderosos presidentes de câmara de Istambul e Ancara, que enviaram o seu pessoal e equipamento rodoviário e de obras públicas para o local. Estes autarcas populares da oposição foram insultados por apoiantes do governo, mesmo quando as suas equipas tentaram preencher as lacunas deixadas pelas agências governamentais no terreno, tais como a reparação da pista do aeroporto de Hatay ou a extinção do incêndio no porto de Iskenderun.

Mais de 10.000 socorristas de mais de 70 países estiveram no terreno. A presença em particular de equipas da Grécia, Arménia e Israel (países que ainda ontem  eram considerados pelo Governo como "inimigos da Turquia") foi fortemente notada e recebida com gratidão pela população. Mesmo o Ministro dos Negócios Estrangeiros turco, que também tinha feito discursos semelhantes, deu as boas-vindas aos seus homólogos destes três países e teve de lhes agradecer publicamente. Por outro lado, a oferta de assistência da República do Chipre foi recusada pelas autoridades com o fundamento de que a Turquia se recusa a reconhecer oficialmente os representantes internacionalmente reconhecidos da República do Chipre.

No entanto, várias destas equipas estrangeiras foram obrigadas a regressar prematuramente a casa, quer porque as autoridades não forneceram as condições de segurança necessárias ao seu trabalho, quer porque os funcionários da AFAD decidiram demasiado cedo deixar de procurar vítimas vivas debaixo dos escombros, a fim de intervir com bulldozers onde ainda poderiam ter sido salvas vidas.

Sempre que as equipas da sociedade civil encontravam uma pessoa viva debaixo dos escombros e tinham feito todo o trabalho preliminar para assegurar a sua extração, as equipas oficiais apressavam-se a afastá-los e a trazer eles  próprios os sobreviventes sob o olhar das câmaras dos canais de televisão próximos do Governo. E tudo isto por entre bandeiras turcas e cânticos religiosos.

Num momento crucial dos salvamentos, o Governo até bloqueou o Twitter durante 24 horas para evitar transmitir notícias sobre a extensão dos danos e a sua negligência. No entanto, foi através das redes sociais que se estabeleceu a comunicação, quer diretamente com as vítimas enterradas, quer para coordenar os esforços de resgate. Esta censura foi descrita como "criminosa" pela oposição.

A pilhagem tornou-se prática corrente, especialmente à entrada das cidades afetadas. Os bandos armados roubaram camiões que transportavam material de ajuda, sobretudo nas estradas nacionais para a região sísmica e mesmo no coração de Istambul, sem uma intervenção eficaz da polícia. Em contrapartida, agentes da polícia lincharam e torturaram uma série de indivíduos acusados de pilhagem, tendo estas cenas sido mesmo filmadas.

Alguns círculos nacionalistas transformaram os refugiados sírios em bodes expiatórios, acusando-os de estarem por detrás das pilhagens. No entanto, eles foram também vítimas do terramoto.

Impacto político

Erdogan tinha anunciado que as eleições presidenciais e legislativas previstas para 18 de Junho de 2023 seriam antecipadas para 14 de Maio. O terramoto obrigou-o a mudar completamente de tom. De facto, não só a organização do esforço de socorro foi um grande fiasco para o seu governo, como também se revelou que em 20 anos no poder, não tinha tomado quaisquer precauções para limitar os danos num país com elevado risco de terramotos. A raiva está a crescer na região atingida, onde a maioria das cidades ainda eram bastiões eleitorais do seu partido islamista AKP e do seu companheiro nacionalista de extrema-direita, o MHP. Como resultado, Erdogan pede agora à população que "lhe dê mais um ano para reconstruir o país". Os seus apoiantes já falam da "necessidade" de adiar as eleições por um ano. No entanto, a Constituição turca só prevê esta possibilidade em caso de "guerra", por decisão maioritária do Parlamento e só dele. A oposição insiste, portanto, que as eleições devem ser realizadas a tempo, afirmando que qualquer ação das autoridades para as atrasar, em total violação da Constituição, equivaleria a organizar um "golpe de Estado".

A declaração de estado de emergência nas 10 províncias afetadas também reforça as dúvidas sobre o bom funcionamento das eleições.

É agora certo que o grande perdedor político do terramoto é o Presidente Erdogan: as sondagens já o davam como perdedor e hoje ele já não tem nem tempo nem meios para recuperar a confiança dos eleitores.

Encurralado, Erdogan multiplica as suas ameaças e agarra-se ao seu discurso religioso, explicando que o terramoto faz parte dos "planos do destino". Ele tenta encobrir a incompetência do seu governo, dizendo que esta é a maior "catástrofe do século" e que ninguém poderia tê-la previsto ou tomado medidas eficazes. Na realidade, a Turquia é de facto a vítima da "catástrofe do século", mas esta catástrofe é nada mais nada menos que o próprio Erdogan.


Ragıp Duran é jornalista. Artigo publicado no jornal grego TVXS e no Europe Solidaire Sans Frontières. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.