Cimeira da União Africana expulsa representante de Israel

20 de February 2023 - 9:56

Seguranças retiraram da sala uma diplomata israelita na cerimónia de abertura com a presença de António Guterres. Porta-voz da presidência diz que ela não era a pessoa credenciada para assistir à cerimónia, Israel culpa o Irão, África do Sul e Argélia.

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Foto da Presidência do Ruanda/Flickr

A cerimónia de abertura da 36ª sessão da Assembleia da União Africana teve este sábado um episódio inesperado. Uma diplomata israelita presente na sala foi convidada a sair e escoltada por seguranças até à entrada do edifício-sede da organização em Adis Abeba, na Etiópia.

O incidente foi de imediato condenado pela diplomacia israelita, afirmando que a sua diretora-adjunta para África, a embaixadora Sharon Bar-Li "foi retirada da sala da União Africana apesar de ser uma observadora acreditada e com credenciais de entrada" no local.

Por seu lado, Ebba Kalondo, porta-voz da reunião da União Africana, explicou à Reuters que a diplomata só foi retirada do local por não ter sido convidada para ali estar, dado que as  credenciais foram atribuídas ao embaixador israelita junto da União Africana, Aleli Admasu. "É lamentável que a pessoa em questão tenha abusado desta cortesia", acrescentou.

O episódio insere-se no quadro da resistência cada vez mais vincada contra a decisão unilateral do então presidente da comissão, Moussa Faki Mahamat, de admitir Israel como país observador da União Africana em 2021. Telavive aponta o dedo à África do Sul e à Argélia, acusando-os de manterem a organização refém das suas posições ditadas pelo "ódio" manipulado pelo Irão. E acrescenta que o eventual cancelamento do estatuto de observador de Israel não está previsto nos regulamentos da União Africana.

A diplomacia sul-africana respondeu pela voz de Clayson Monyela, responsável pela diplomacia pública no ministério. Diz que a candidatura de Israel não foi aprovada pelos estados-membros e até que seja aprovada "não podemos ter esse país aqui sentado a assistir". Por isso, acrescenta Nonyela, "não se trata aqui da África do Sul ou da Argélia, é uma questão de princípio".

A entrada de Israel como membro observador tem sido alvo de disputa diplomática há vinte anos, desde que a União Africana substituiu a Organização de Unidade Africana, onde Israel detinha esse estatuto. O regime de colonização e apartheid contra os palestinianos condenou essa tentativa ao fracasso, até à decisão de Mahamat em 2021. Desde então, as propostas de votar a suspensão desse estatuto a Israel têm sido adiadas, dada a divisão existente entre os países sobre a matéria. Uma comissão dedicada ao assunto foi constituída no ano passado para tentar encontrar algum consenso.

A União Africana tem-se posicionado diversas vezes ao lado da resistência do povo palestiniano à opressão israelita e a Palestina detém o estatuto de observador na organização, tendo defendido com insistência que Israel "não merece ser recompensado" com o estatuto de observador enquanto viola as resoluções da União e mantém o regime de apartheid.