Europa: torneiras dos gasodutos russos fecharam, abrem as do gás liquefeito

28 de February 2023 - 18:19

Com a guerra na Ucrânia, o consumo de gás russo por gasoduto na Europa caiu significativamente. Mas o consumo de gás liquefeito russo aumentou 46%. Só os EUA aumentaram mais a venda de GNL à Europa. Os ecologistas denunciam os perigos ambientais destes negócios.

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Complexo de produção de gás em Zapolyarnoye. Fonte: governo russo/wikimedia.
Complexo de produção de gás em Zapolyarnoye. Fonte: governo russo/wikimedia.

Depois da invasão da Ucrânia, a importação de gás natural russo que chega por gasoduto à Europa caiu drasticamente. Se no terceiro trimestre de 2021 as importações de gás da Rússia por aquela via representavam 40% do consumo europeu, no terceiro trimestre de 2022 foram apenas 11%, o que representa uma queda de 74%.

Esta quebra não surpreenderá ninguém que tenha ouvido falar em sanções ou na explosão do Nord Stream 1. Mas a outra face da moeda tem sido menos falada: o fecho da torneira dos gasodutos russos abriu caminho ao crescimento de outro mercado, o do gás natural liquefeito (GNL). E neste o destaque é para crescimento acentuado das exportações vindas dos EUA. Mas também das vindas da própria Rússia.

Um relatório dos Amigos da Terra – França, intitulado “Do gás russo ao gás de xisto americano: um ano depois da agressão na Ucrânia, a caminho de novas dependências” mostra que entre janeiro e setembro de 2022, a União Europeia importou mais 68% de GNL, ou seja 97,8 mil milhões de metros cúbicos, do que no ano anterior. No terceiro trimestre desse ano, as importações de GNL representaram 39% das importações deste espaço económico, com a França a ser a maior importadora (um aumento de 88% nos três primeiros trimestres face ao período análogo do ano anterior) e a Espanha logo atrás.

Em termos totais, o grande vencedor desta mudança são os Estados Unidos. Entre janeiro e setembro de 2022, exportou mais 171% do que em igual período do ano anterior, aumentando a quota nas importações europeias em 17%. A França tornou-se mesmo o maior importador mundial de GNL estadunidense. 38% do consumo de gás do país passou a ser feito por essa via.

Mas, por outro lado, a importação de GNL russo pelos europeus também cresceu significativamente, com uma subida naqueles mesmos períodos de 46% e uma quota de 17% das importações europeias. Só a França gastou 3,7 mil milhões de euros no GNL russo, de acordo com as estimativas do Centre for Research on Energy and Clean Air. O complexo russo Yamal LNG alcançou recordes de produção o ano passado, tendo exportado 21 milhões de toneladas de GNL.

O estudo da ONG ambiental conclui tratar-se de “um verdadeiro absurdo, uma vez que a corrida ao GNL foi justificada politicamente pela necessidade de se desfazer da nossa dependência face às energias fósseis russas, em reação à guerra na Ucrânia”.

Os impactos ecológicos da corrida europeia ao GNL

Os Amigos da Terra – França revelam preocupação com o “frenesim” da “multiplicação de importações e contratos de longa duração que arriscam criar novas dependências e agravar a desregulação climática”, sublinhando ser “uma má resposta à crise energética”, “ineficaz e cara” e que implica “a substituição de uma dependência por outra”.

Neste estudo, considera-se que o aumento das capacidades de importação a curto prazo não resolverá a crise energética. Até porque “significa que o aprovisionamento na Europa só pode ser assegurado a médio prazo através de preços extremamente elevados”. A longo prazo, quanto às novas infraestruturas que estão a ser construídas para o GNL, estão previstos 32 projetos de terminais de importação de GNL por toda a Europa, e os contratos assinados por 10 a 20 anos “arriscam encerrar-nos no consumo de gás durante décadas", ao passo que “a luta contra as alterações climáticas impõe-nos uma redução urgente e drástica do consumo de energias fósseis”. Por outro lado, se a Europa cumprisse mesmo o objetivo de reduzir em 35% o seu consumo de gás até 2030, os terminais ficariam “obsoletos” e seriam ativos tóxicos e “um risco maior para a economia”.

Os ambientalistas sublinham que “vários estudos mostraram que a Europa pode dispensar o gás russo até 2025, reduzindo o consumo e desenvolvendo massivamente as alternativas como as energias renováveis”.

Na outra ponta do circuito económico, este aumento de importações de GNL “encoraja novos projetos de extração de gás”, referindo-se nomeadamente o aumento de 5% na produção de gás nos EUA e uma “multiplicação de projetos em África” dos quais um dos exemplos são “os sinais de relançamento" do projeto da Total em Moçambique que está parado por razões “de segurança”.

Outra das críticas sobre o aumento de importação do GNL é que isso representa um crescimento do recurso ao gás de xisto. 87% do gás produzido nos EUA é gás de xisto ou gás estanque “e é assim extraído por fraturação hidráulica”, técnica com impactos ambientais e sanitários “consideráveis”.

A Total, o ator do costume a lucrar

O Mediapart estima que a multinacional francesa dos combustíveis fósseis Total vá lucrar 1,5 mil milhões em dividendos graças às importações de gás vindas da Rússia.

A empresa até tinha propagandeado a sua saída dos campos de exploração de petróleo russos em Kharyaga e Termokarstovoye por causa da invasão da Ucrânia. Também anunciou a retirada dos seus administradores e diminuir ativos em 3,7 mil milhões de dólares do produtor de gás russo Novatek. Na verdade, detém ainda assim 19,4% dele e 20% do consórcio Yamal LNG.

A empresa justifica esta sua política com “o seu dever de contribuir para a segurança do aprovisionamento de gás na Europa a partir da fábrica Yamal LNG no quadro de contratos de longo prazo que deve honrar enquanto os governos europeus não tomem sanções contra o gás russo”. O patrão da empresa, em entrevista à Ouest-France em junho de 2022, acrescentava que foram as autoridades europeias que "pediram para continuar a fornecer os consumidores europeus porque ainda não o podiam dispensar”.