Lições portuguesas sobre o poder de Pedro Sánchez

07 de February 2022 - 20:01

Não é preciso ser um génio para perceber que o chefe de governo e o presidente fabricaram artificialmente uma crise política. Este foi o debate verdadeiro do orçamento. Por Manolo Monereo.

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Sánchez e Costa na última cimeira ibérica. Foto nortes.me.
Sánchez e Costa na última cimeira ibérica. Foto nortes.me.

Os resultados das recentes eleições portuguesas foram uma surpresa para todos, incluindo as empresas de sondagens. Estas diziam que havia um empate técnico entre a direita e o Partido Socialista. Não foi assim. António Costa conseguiu a maioria absoluta e, finalmente, pode governar sem aliados políticos à sua esquerda. Não acredito nas teorias da conspiração. O PS criou uma situação, um cenário, que convidava à polarização e ao voto útil contra uma extrema-direita que emergia fortemente. Uma das consequências mais significativa foi a derrota do Bloco de Esquerda e da CDU/PCP. O Bloco perde um pouco mais de 50% dos seus votos e 14 deputados; a CDU 28% do seu eleitorado e seis deputados. Um dado a não esquecer é que a direita não perde influência; simplesmente fragmenta-se ou, o que é o mesmo, o PS ganha reduzindo o peso eleitoral das forças à sua esquerda.

As reações em Espanha foram de grande satisfação – como é natural – no PSOE e em “singulares” no âmbito das Unidas Podemos. Pablo Iglesias, passando a fatura a Enric Juliana, afirmou contundentemente que as eleições no país vizinho justificavam a estratégia de governar com o PSOE e não apoiar a partir de fora. Ione Belarra continuou pelo mesmo caminho e assinalou que o futuro das Unidas Podemos era continuar a governar com Pedro Sánchez. Comparar situações heterogéneas e fazê-lo a golpe de parangonas não é o melhor método para procurar ensinamentos noutras experiências.

Os camaradas portugueses poderiam dizer coisas parecidas dos seus aliados espanhóis. Não o farão, não é o seu método. Procurarão, com modéstia, compreender o que se passou de forma autocrítica e melhorar o seu trabalho.

Há um grande paradoxo: a esquerda votou massivamente em Costa para defender as conquistas obtidas, em grande parte, devido à influência de uma esquerda que queria romper com as políticas neoliberais. Cada país tem a sua história, determinado sistema político e formas específicas de expressar as contradições entre as forças em presença, tanto à direita como à esquerda. O PS tem tentado, desde há anos, livrar-se do fardo de governar graças a uma aliança com a sua esquerda. Isto ficou claro nas eleições de 2019 e definitivamente nestas. Porque era difícil considerar seriamente governar com o Partido Socialista? Em primeiro lugar, porque a esquerda estava e está dividida em dois blocos. O Partido Comunista Português continua a pensar que o Bloco de Esquerda não tem razão para existir e que vem dividir as forças populares. Isto tornou a gestão do Partido Socialista muito fácil: negoceia com um e com outro, coloca-os um contra o outro e beneficia da sua fragmentação.

Por outro lado, esta divisão bloqueia a possibilidade de construir uma alternativa solvente à social-democracia e hipoteca de forma duradoura a credibilidade da esquerda alternativa como força com vontade de maioria e de poder.

E, em terceiro lugar, algo fundamental, as diferenças programáticas entre o PS e as forças situadas à sua esquerda eram grandes e insanáveis. Nunca foi uma questão de pureza ou de não se atrever a assumir os riscos de governar. Para o tornar mais claro, as reformas acordadas com o PS foram-no contra o seu programa e a sua estratégia política.

Uma lição que se deveria retirar sem distorcer a análise: o chefe de governo português não tem a prerrogativa de convocar eleições antecipadas, quem a tem é o Presidente da República. O que este fez foi anunciar que iria convocar eleições se o orçamento não fosse aprovado, ou seja, deu a António Costa uma arma poderosa para chantagear a sua esquerda. Não é preciso ser um génio para perceber que o chefe de governo e o presidente fabricaram artificialmente uma crise política. Este foi o debate verdadeiro do orçamento. Há quem diga que se devia tê-lo aprovado, ainda que supusessem a aceitação de políticas de austeridade. Ambas as formações à sua esquerda, sempre divididas, decidiram opor-se, sabendo os riscos que corriam. Costa aproveitou a derrota parlamentar para ir a eleições gerais antecipadas e culpabilizar os seus antigos aliados.

A singularissima e recente aprovação da Reforma Laboral no Congresso diz muito acerca da atual situação política espanhola e abre uma perspetiva que muito que ver com a experiência portuguesa. Há elementos que nos podem ajuda vislumbrar o que aí virá. A “reforma da (contra)reforma laboral” foi aprovada por um voto enganado de um conhecido apoiante do PP. Que teria acontecido se não fosse aprovada? Que teria feito a ministra Yolanda Díaz? No mínimo pode-se dizer que esteve à beira de uma derrota de grandes dimensões. As consequências estão aí: uma direita que endurece com o discurso do Vox, a rutura do bloco que permitiu a formação do governo e uma reforma que se enquadra naquilo que Pedro Sánchez sempre quis. O mais significativo é que a relação de forças parlamentar existente não dá para mais, que não há margem para uma nova transversalidade; ou seja, as eleições, as verdadeiras, não estão muito longe. Que fará Sánchez?

Yolanda Díaz jogou forte e quase perdeu. A sua estratégia foi apoiar-se nos sindicatos como aliados estratégicos e conseguir a aprovação das confederações patronais para uma reforma digna. O caminho não era fácil.

Havia uma mesa negocial a três (agentes sociais, patrões e governo) tutelada pela União Europeia e Pedro Sánchez, com a inestimável coordenação da ministra Calviño. Teria sido bom dizer a verdade sobre o que se passava nos bastidores para compreender porquê esta lei e não outra. A reforma é uma melhoria substancial, mas não significa a revogação da reforma de Rajoy. Uma política que está num governo minoritário com o seu maior adversário eleitoral deve saber diferenciar-se de uma forma positiva e ser uma pedagoga. A gestão do acordo não tem sido boa e não deixa o projeto que Yolanda Díaz quer liderar numa boa posição.

Poderia ter existido uma estratégia alternativa baseada na política e na centralidade do Parlamento. Os patrões não têm qualquer problema em aceitar decretos governamentais que restrinjam os direitos dos trabalhadores sem o consenso dos sindicatos. Quando a esquerda está no governo, as organizações patronais exigem que os regulamentos sejam aprovados com o seu acordo. No final de contas, as melhorias para os trabalhadores são sempre reversíveis e quem decide em último lugar são os governos de direita. Quando Yolanda Díaz assinou o acordo ficou presa a ele. As confederações patronais e os sindicatos disseram que não se podia tocar nem numa vírgula; o PSOE rapidamente adotou a mesma posição e defendeu-a militantemente. Para os aliados era um contrato de adesão: era pegar ou largar.

Confundir a lógica sindical com a lógica política é um mau caminho. Durante anos os sindicatos, com boas razões, defenderam a sua autonomia política e programática. Agora parece que é preciso reivindicar a autonomia do político, precisamente nos momentos em que a democracia social está em perigo e os Parlamentos são substituídos pelos acordos entre as elites. A contradição é muito forte: um acordo social que se deve converter em lei com um Parlamento mudo e sem capacidade de o modificar num ou noutro sentido, quando, para além disso, havia uma maioria para ir mais longe nos seus conteúdos.

Diz-se que se tivesse seguido a via política-parlamentar não se teria conseguido o acordo com os patrões; é possível. A deliberação democrática, o debate de ideias e projetos não é uma coisa anedótica na Assembleia na qual reside a soberania popular; é o seu fundamento e convida a um tipo específico de consenso baseado em clareza. Se se tivesse seguido esta via político-parlamentar saberíamos com muita precisão a posição das diferentes forças políticas, as suas diferenças e os seus acordos; conheceríamos o que realmente pensa o PSOE e os limites que a União Europeia impunha para se receber os fundos de recuperação. Ver-se-ia com mais clareza o que queriam realmente as confederações patronais via Partido Popular. E haveria outra lei.

Subestimar Pedro Sánchez é um erro que se paga. Os beijos e abraços, as boas maneiras e o tom amigável, não escondem a realidade de um sobrevivente, de um político feito que tem um projeto claro: voltar a converter o PSOE no partido do regime, na força que organiza a nova centralidade de uma monarquia parlamentar que saiu da crise do 15M. Qual é a condição prévia? Reduzir à sua mínima expressão as forças à sua esquerda, convertê-las em complementares e subalternas. Sánchez sabe que governar é um modo de organizar o conflito com as Unidas Podemos, convertê-lo num território em disputa que neutraliza, integra, coopta. Um velho político ensinou-nos que a respeitabilidade é sempre o caminho principal para se adaptar aos poderes existentes. O Presidente do governo tem poder para convocar eleições quando lhe pareça oportuno, iniciativa política acreditada e capacidade de criar cenários, situações favoráveis. Tem experiência de êxitos e, sobretudo, de fracassos. Avaliará o momento certo.

Yolanda Díaz tornou a sua gestão no ministério na sua melhor plataforma político-eleitoral. As coisas não saíram como se esperava. Esteve à beira do fracasso. Agora deve falar de política e arriscar. A vice-presidente disse-o muitas vezes, faz falta construir um novo projeto de país. É uma ideia forte. Como? Com quem? Foram-se deixando cair ideias. Falou-se de um partido trabalhista que dificilmente encaixa com a nossa cultura e tradições. Esta ideia tem pelo menos duas interpretações: força fortemente enraizada no mundo do trabalho e nos seus problemas ou braço político do sindicato. É de esperar que as coisas se esclareçam rapidamente. Pedro Sánchez continua a trabalhar.


Manolo Monereo é um advogado, cientista político e político espanhol. Foi militante do PCE e da IU e deputado da Unidas Podemos.

Texto publicado originalmente no Nortes.me. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

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