Uma reportagem do programa da BBC Panorama intitulada “Sexo por trabalho: o verdadeiro custo do nosso chá” revelou que mais de 70 mulheres que trabalham em quintas no Quénia, propriedade de duas empresas britânicas e que produzem para as mais famosas marcas desse país, foram vítimas de abusos sexuais por parte dos seus supervisores.
Muitas destas mulheres falaram com Tom Odula do canal televisivo público britânico denunciando a situação. Contaram que supervisores ameaçam as trabalhadoras de despedimento exigindo-lhes sexo.
Depois disso, o programa filmou com câmara escondida responsáveis locais das empresas a tentarem pressionar uma jornalista sob disfarce. Numa destas ocasiões, Katy, nome fictício adotado pela repórter, foi convidada por John Chebochok, um patrão de empresa de recrutamento que trabalha para uma das quintas, para uma entrevista de emprego que acabou por ser marcada para um quarto de hotel. Acabou empurrada contra uma janela, com o patrão a exigir-lhe que se despisse e lhe tocasse em troca de dinheiro e de emprego. A situação só terminou depois de uma chamada de um dos membros da equipa de produção.
Noutra circunstância, depois de ser contratada para outra quinta, Jeremiah Koskei, responsável de divisão, fez um discurso de apresentação às novas trabalhadoras em que falou da política de “tolerância zero” da Unilever face ao abuso sexual. O mesmo homem que depois disso a convidou para um bar de hotel e tentou pressionar a ter sexo com ele. Depois de ter sido destacada para a equipa de monda, um dos trabalhos mais penosos, o supervisor do setor, Samuel Yebei, sugeriu-lhe terem sexo em troca de a destacar para um trabalho mais leve. A jornalista fez queixa a um dos responsáveis pela questão dos abusos sexuais na empresa mas quando o questionou posteriormente sobre o andamento do processo não obteve nenhuma resposta.
Estas plantações são propriedade da Unilever e da James Finlay & Co e estas empresas produzem chá para marcas como a PG Tips, a Lipton, a Sainsbury's Red Label e a norte-americana Starbucks. Chebochok foi suspenso pela James Finlay & Co depois da reportagem contactar a empresa e denunciado à polícia. A operação da Unilever no Quénia foi vendida à Lipton durante o período de filmagens. O antigo dono disse-se “profundamente chocado e entristecido” quando contactado sobre o seu conteúdo. O novo proprietário declarou que suspendeu imediatamente os dois supervisores e que ordenou uma investigação “completa e independente”.
A BBC sublinha que a Unilever já “tinha enfrentado alegações semelhantes há mais de dez anos e implementado uma política de “tolerância zero” para com o abuso sexual, com um sistema de denúncias e outras medidas”. Mas a investigação televisiva “encontrou provas alegações de assédio sexual não estavam a ser investigadas”.
No seguimento da divulgação do caso, a France-Presse revela esta quarta-feira que as autoridades do Quénia abriram vários processos. O procurador Noordin Haji pediu à direção da polícia “investigações aprofundadas” que resultem “em sete dias” na entrega de um dossier de investigação. A vice-presidente da Assembleia Nacional, Gladys Shollei, anunciou também uma comissão de inquérito que espera um relatório em duas semanas. E as autoridades locais de Kericho, onde estas plantações estão situadas, lançaram também elas uma investigação às empresas britânicas.