Estamos a escrever-vos da Síria para vos falar sobre a realidade no terreno e as nossas preocupações sobre o terramoto que atingiu a região. Esta terrível catástrofe veio acrescentar o caos a uma situação geopolítica já de si catastrófica.
É importante destacar alguns aspetos da situação, a fim de compreender o que está a acontecer aqui.
Os regimes sírio e turco estão a utilizar a tragédia que atingiu milhares de pessoas para colocar os seus peões no tabuleiro de xadrez geopolítico. Na Turquia, o governo AKP MHP está a aproveitar a atual crise para fazer campanha eleitoral e para, mais uma vez, amordaçar as vozes dissidentes. A criação de uma linha direta para denunciar aqueles que criticam a incapacidade do Estado em ajudar a sua população é o exemplo mais repugnante. O bloqueio do Twitter na Turquia ilustra esta vontade constante de amordaçar a população.
Também consideramos necessário recordar que as populações afetadas, seja em território sírio ou turco, são na sua maioria curdas. É portanto necessário denunciar a negligência dos Estados em termos de normas de construção (especialmente após os numerosos escândalos de corrupção no sector imobiliário que mancharam o governo AKP MHP).
É por isso que vos enviamos vídeos da região, traduzidos por nós, para que possam aprofundar o assunto e partilhar a informação.
Uma catástrofe natural, inseparável do seu contexto político
Desde a Comuna Internacionalista de Rojava, fomos profundamente afetados pela tragédia que este terramoto representa. Os nossos pensamentos estão com todas as famílias duramente atingidas, independentemente da sua origem. Onde estamos, sentimos a terra a tremer, mas sem as consequências dramáticas vividas noutras regiões. Se as fronteiras marcam por vezes linhas intransponíveis, a ligação entre os povos não as tem em conta. Aqui, no nordeste da Síria (Curdistão Ocidental / Rojava) vivem milhares de pessoas que têm uma forte relação com outras noutras partes do país, mas também com as populações do sul da Turquia (Curdistão do Norte / Bakur).
Acreditamos que as emoções não devem fazer-nos esquecer de olhar para a situação de um ponto de vista político. O que está a acontecer hoje não é um acontecimento natural desligado da forma como a sociedade está organizada, cujas linhas de fratura nacionalistas e racistas dividem os povos, cuja economia capitalista favorece o lucro em detrimento do bem-estar, cujas políticas dos Estados-nação são orientadas pelo curto-prazo e pelo eleitoralismo. Muitas vozes estão a levantar-se, neste momento, para apelar a sentimentos de solidariedade, a valores universalistas. Apoiamos estes apelos, mas não aceitamos deixar de lado o contexto sócio-político em que se produzem estes acontecimentos.
As responsabilidades passadas, presentes e futuras não podem ser apagadas sob o pretexto de uma visão humanista que nunca existiu, aos olhos dos regimes políticos dos Estados-nação da região e do resto do mundo. Os principais meios de comunicação social estão emocionados com a situação, mas estes mesmos meios de comunicação social calaram-se recentemente sobre o sofrimento destas mesmas populações e provavelmente voltarão a calar-se dentro de algumas semanas.
Contexto geográfico e político
O terramoto de magnitude 7.8 que ocorreu na noite de 5 para 6 de fevereiro já fez mais de 12.000 vítimas mortais [NT: à data desta publicação são já mais de 36 mil] e, infelizmente, é mais do que provável que este número venha a aumentar ainda mais. As regiões mais atingidas são principalmente curdas, em ambos os lados da fronteira turco-síria. Historicamente abandonadas e oprimidas por Ancara (como em Maraş), sob ocupação turca e islamista extremista no norte da Síria (como em Afrin), tendo sofrido a repressão brutal de Assad (como em Aleppo) ou vivendo recentemente sob bombardeamento turco (como em Tel Rifaat). A isto acresce a presença de milhares de refugiados, que fugiram das numerosas batalhas que desestabilizaram a região durante uma década. Esta catástrofe é, portanto, ainda mais grave porque as populações estão a atravessar dificuldades económicas e políticas de longa data.
A atual cobertura mediática é mais um exemplo da invisibilização do povo curdo. Poucos meios de comunicação social se têm dado ao trabalho de apontar quais as populações que vivem nas regiões afetadas. A ideia não é de modo algum tornar identitária esta catástrofe natural - a natureza não faz distinções culturais - mas não a dissociar de uma realidade humana e histórica que, de uma forma essencial, nos permita realmente compreender as provações que as pessoas estão a viver. A solidariedade genuína só pode existir tendo em conta os meandros desta realidade.
Tudo menos uma surpresa e muito mais do que um desastre natural
Este terramoto está longe de ser o primeiro a atingir a região. A região encontra-se no cruzamento de três placas tectónicas, o que a torna um ponto de referência sísmica (por exemplo, a Turquia sofreu nada menos que 230 sismos de magnitude superior a 6 durante o século XX, 12 dos quais com mais de mil vítimas). Historicamente, estas catástrofes são numerosas, tendo a mais recente ocorrido em grande escala em 1999, com quase 20.000 mortos. A consciência desta realidade faz-nos compreender que o atual regime fez tudo menos implementar uma política preventiva nesta área, apesar da significativa ajuda europeia recebida para planos de desenvolvimento urbano adaptados.
Durante anos, os sismólogos têm vindo a alertar para o risco iminente de movimentos perigosos de placas, sem que o governo reaja. Isto é ainda mais escandaloso quando conhecemos as estreitas ligações entre o partido AKP e o próprio Erdogan e a indústria da construção, bem como os projetos, cada um mais faraónico do que o outro, que têm sido realizados desde que tomou o poder. Os casos de corrupção são incontáveis (tanto em termos de contratos públicos/privados como de utilização de materiais de qualidade inferior e de não cumprimento dos regulamentos), e os opositores destes projetos e jornalistas que tentaram esclarecer estes casos estão na prisão às dezenas. As manifestações do Parque Gezi são um exemplo que mobilizou grandes sectores da população de Istambul contra a gentrificação urbana, os mega-projetos e a destruição ambiental. Elas ilustram os danos de uma política económica centrada no aumento do consumo e na urbanização centralizadora que ignora as aspirações populares e cria uma clivagem social cada vez mais escandalosa.
Quanto às regiões sírias, a desestabilização e o rescaldo de anos de guerra ainda estão bem vivos. O regime de Damasco, com aliados internacionais diferentes dos de Ancara, demonstrou tragicamente durante a última década que está disposto a fazer tudo para se manter no poder. Se a experiência de autonomia de Rojava é tolerada, é apenas por causa da força, determinação e dos sacrifícios que tem demonstrado.
Ajuda ineficaz e repressão de vozes críticas
Como inúmeros testemunhos ilustram, e ao contrário da propaganda do governo turco, muitas regiões estão literalmente abandonadas à sua sorte. Em muitos lugares (como em Gaziantep), nenhuma ajuda tinha chegado nas 12 horas, embora cruciais, após o terramoto. A ineficácia da prestação da ajuda é em parte estrutural, voluntária e devido ao contexto geopolítico. Hoje em dia, nos meios de comunicação social turcos, o número de comentários que apelam ao desinteresse pela morte de curdos, incluindo crianças, é assustador. O governo turco já emitiu ameaças claras indicando que qualquer crítica às medidas tomadas seria considerada uma forma de traição e seria duramente reprimida (criou um número de telefone para denunciar tais "atos subversivos"). A criminalização da oposição, que se arrasta há anos, só irá aumentar, através de um regime angustiado que reforça um auto-intitulado discurso de unidade que na realidade é um autoritarismo exacerbado: "Se criticas, estás contra nós e, portanto, contra a nação!" Há algumas horas, o Twitter foi simplesmente encerrado na Turquia.
Na Síria, entre as áreas mais afetadas estão as que estão sob ocupação turca e nas mãos de mercenários islamistas a soldo de Ancara. Isto significa desorganização local e maior dificuldade em obter ajuda. A AANES (Administração Autónoma do Nordeste da Síria) anunciou que pretende prestar ajuda às áreas vizinhas das que administra, enquanto o regime de Assad gostaria de monopolizar a ajuda internacional. A situação de embargo que Rojava está a viver é um elemento que está a ser sentido de forma ainda mais aguda neste momento. O exército turco, por seu lado, não parece determinado a observar a mais pequena trégua, apesar da catástrofe. A região atingida pelo terramoto de Tel Rifaat, por exemplo, foi novamente bombardeada ontem à noite (terça-feira 7 de fevereiro).
Instrumentalização / invisibilização vs. auto-organização / internacionalismo
A prioridade é, evidentemente, a urgência da ajuda. No entanto, é já necessário prestar atenção à forma como esta catástrofe será instrumentalizada, por um lado, para as próximas eleições (no próximo mês de maio), mas também, por outro lado, para ver que lições serão ou não aprendidas. Quando uma tal catástrofe ocorre, as feridas e as necessidades não desaparecem ao mesmo tempo que a atenção dos meios de comunicação social. Vidas e casas são destruídas, a reconstrução é um processo a longo prazo que vai além do cimento e deve envolver a prevenção e o reforço da capacidade local de resposta a tais terramotos.
É uma aposta segura que Erdogan e Assad já estão a desenvolver planos para tentar tirar partido da situação, de uma forma ou de outra (como o ênfase na criminalização de partidos da oposição como o HDP). É uma aposta segura que isto será feito na linha de uma unidade nacional que é apenas uma fachada destinada a preservar o seu poder, em detrimento dos interesses das populações. Os primeiros sinais sugerem que, infelizmente, isto não terá um efeito calmante sobre os objetivos belicistas e repressivos dos regimes que, no final, só são sustentados graças a isso. Se a situação atual exige uma reação rápida e unilateral, esta solidariedade espontânea não deve ser diluída tão rapidamente como se manifesta, deixando o caminho aberto para políticas que demonstraram, para além de toda a razão, os seus efeitos catastróficos na vida da maioria das populações, agora duramente atingidas.
Acreditamos que este terramoto é sintomático em muitos aspetos dos efeitos prejudiciais de um paradigma de Estado-nação que é inimigo da autonomia local e da auto-organização descentralizada, de um capitalismo que nunca procura o bem-estar a longo prazo dos povos, mas antes se alimenta de crises e conflitos. A região, tão tragicamente atingida nestes dias, é também o berço de uma construção tenaz que, durante décadas, construiu um modelo político genuinamente democrático. Isto é visto, com razão, como uma ameaça ao poder dos regimes existentes. É por isso que é atacada por todos as partes.
Hoje, como faz a Administração Autónoma, queremos que a solidariedade se exprima em todo o lado e de forma concreta. Amanhã, quando a emoção tiver diminuído e as câmaras se tiverem afastado, esperamos que as mulheres e os homens que povoam esta parte do mundo não sejam novamente esquecidos. Isso depende de cada um de nós, é a própria essência do internacionalismo que nos habita e não conhece fronteiras. Ajudar agora a aliviar a emergência é essencial, tecer laços genuínos de solidariedade para o futuro é vital.
8 de fevereiro de 2023
Comuna Internacionalista de Rojava.
Publicado no blog Médiapart de Pascal Maillard, republicado por Viento Sur. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net.