“Tarefeiro pode ganhar mais em 24 horas do que médico interno num mês de trabalho”

29 de August 2022 - 14:54

Presidente do Conselho Nacional do Médico Interno denuncia falta de condições de trabalho e cansaço generalizado e alerta que “é preciso dar aos médicos condições suficientes para que fiquem no SNS”.

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Foto Tiago Petinga, Lusa.

Em entrevista ao jornal Público, Carlos Mendonça, presidente do Conselho Nacional do Médico Interno, um órgão consultivo da Ordem dos Médicos, explica que, ao recusarem-se a fazer mais do que 150 horas extraordinárias por ano nos serviços de urgência, os médicos internos estão a mostrar o seu cansaço.

O responsável assinala que estes profissionais “são a base e o pilar das urgências, porque neste momento, e excetuando os hospitais mais periféricos, todos os outros dependem muito dos internos para aquilo que é o trabalho de rotina” e que são, neste momento, “cerca de 30% de todos os médicos”. Acresce que “muitos dos outros médicos, os especialistas, já não fazem urgência [porque têm mais de 55 anos] e muitos estão quase na idade da reforma, sendo que o pico das aposentações está previsto para este ano e para 2023 e 2024”.

Sobre a sobrecarga de trabalho, Carlos Mendonça indica que “os médicos já têm que cumprir um horário de 40 horas semanais, o que não acontece noutras profissões da Função Pública”. E que “a nova geração quer ter mais tempo para outras atividades, para estar em casa com a família, não quer ter que conciliar atividade pública com privada, não quer andar a correr de um sítio para outro. Quer conseguir gerir a vida com equilíbrio”.

Já no que respeita ao diploma que estipula que os internos podem receber metade daquilo que se paga aos especialistas nos serviços de urgência se já tiverem feito este ano mais de 150 horas extras, o presidente do Conselho Nacional do Médico Interno lembra que o decreto-lei em causa “permite que médicos tarefeiros (em prestação de serviço) continuem a poder ser contratados por um valor que pode ascender a 90 euros por hora”. O que “quer dizer que um tarefeiro continua a poder ganhar mais em 24 horas do que um interno num mês de trabalho”.

Além disso, “ganhar o triplo não é tão apelativo quando alguns internos já fizeram quatro vezes mais horas extraordinárias do que o limite anual”.

“Há um cansaço acumulado. É preciso ver que o médico interno não trabalha só no hospital, tem que fazer cursos, trabalhos, investigação, e tudo isto é feito fora do horário de trabalho”, refere.

Vagas por preencher é “sinal de alerta”

De acordo com Carlos Mendonça, o facto de um número elevado de vagas para a especialidade ficarem por preencher é “um sinal de alerta”.

“Neste momento, temos mais candidatos do que vagas para a especialidade e, se mesmo assim sobram vagas, isto quer dizer alguma coisa. São médicos que preferem esperar um ano e repetir a prova [de acesso à especialidade], ou ficar a trabalhar como tarefeiros, ou emigrar para fazer uma especialidade noutro país, ou ir trabalhar para outras áreas da medicina”, afirma o responsável.

O presidente do Conselho Nacional do Médico Interno sublinha que “chegou-se a um ponto em que não é por poder receber mais um pouco que os internos estão dispostos a trabalhar mais horas” e defende que “pagar mais não basta … é preciso dar aos médicos condições suficientes para que fiquem no SNS”.

Questionado sobre o que poderia fazer com que os jovens médicos ficassem no SNS depois de concluírem a especialidade, Carlos Mendonça avança que “há toda uma série de condições que entram na equação”.

“Será diferente não ter que andar a lutar por um computador, ter gabinetes adequados para atender os doentes, ter urgências mais calmas, mais organizadas. E a inovação tecnológica também conta. Os hospitais privados acabam por oferecer este tipo de condições e as pessoas, podendo ganhar mais, não tendo que fazer horas extraordinárias e podendo fazer investigação e explorar novas tecnologias, optam [pelos privados] e não só por uma questão de dinheiro”, refere.

E acrescenta que, “há 40 anos, quando começou o SNS, os médicos estavam entusiasmados, tinham o objetivo de atingir o topo da carreira, havia incentivos à permanência no SNS”. Mas, “neste momento, isso não existe”.

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