Para Fernando Rosas, é importante assinalar de forma especial os 80 anos do 18 de janeiro de 1934 porque os trabalhadores portugueses se encontram hoje perante um ataque similar ao que o regime salazarista perpetrou em 1933 contra os trabalhadores. “A oligarquia neoliberal que hoje se encontra no poder, aliada ao capital financeiro internacional, quer dobrar o movimento sindical, desorganizá-lo, esvaziá-lo para fazer regredir os direitos do trabalho a cem anos atrás. Para cortar salários e pensões, para acabar com a contratação coletiva de trabalho, com a jornada de oito horas, com direitos e regalias conquistados com rios de sangue e de sacrifício”, afirmou. E sob pena de se seguirem os ataques “ao direito à greve e à liberdade de associação e de expressão sindical, somando a repressão à exploração, os trabalhadores portugueses têm de continuar a lutar”.
Gesto indómito, combate decisivo
Por isso, prosseguiu o historiador, “a memória do gesto indómito do 18 de janeiro ajuda-nos seguramente a ter isso presente”. Por outro lado, disse Fernando Rosas, “o 18 de janeiro lembra-nos que há combates decisivos que são fundadores da luta emancipatória, mesmo quando são temporariamente derrotados”.
Para a deputada Catarina Martins, as lutas de hoje, tal como no 18 de janeiro, também procuram evitar o regresso ao passado. A coordenadora do Bloco de Esquerda deu o exemplo dos trabalhadores da Linha de Saúde 24, despedidos por lutarem.
Despedir trabalhadores que deram a cara pela luta é voltar ao passado
“Estes trabalhadores estão a fazer das lutas mais duras. Trabalhadores sem nenhum vínculo, sem qualquer proteção, a recibo verde, juntaram-se e pararam a Saúde 24 no Porto e em Lisboa pelos seus direitos”, recordou Catarina Martins. E prosseguiu: “Soubemos que 16 desses trabalhadores foram despedidos, entre eles todos aqueles que deram a cara por esta luta. Isto é regressar ao passado – que os trabalhadores não tenham nenhum direito e quando dão a cara pela decência, pela dignidade, pela defesa da sua profissão, possam ser despedidos de um dia para o outro, como fez a empresa que gere a Saúde 24”, afirmou a coordenadora do Bloco, denunciando que “este é o país que Pedro Passos Coelho que nos quer apresentar, o regresso ao passado”.
Lembrando a luta do operariado que há 80 anos se levantou, Catarina Martins sublinhou que mesmo quando é tão duro o retrocesso, o Bloco de Esquerda está presente para continuar a luta, “sem nunca desistir, as vezes que forem precisas”.
No jantar falaram ainda António Chora, e Cristiana Sousa, da Concelhia da Marinha Grande.
Sala cheia no colóquio
Durante a tarde, decorreu um concorrido colóquio, organizado pela Cooperativa Culturas do Trabalho e Socialismo – Cultra, num auditório da Biblioteca Municipal da Marinha Grande onde que foi pequeno para as mais de 200 pessoas presentes, que puderam também apreciar a exposição instalada para o efeito.
O colóquio teve duas mesas. A primmeira, “O Sindicalismo nos anos 30. A indústria vidreira na Marinha Grande”, teve intervenções de Emília Margarida Marques e Paulo Alves. A segunda mesa foi subordinada ao tema “O 18 de Janeiro na Marinha Grande e no país. Memória e história”, apresentado por Hermínio Nunes, João Madeira, Luís Farinha e Miguel Cardina.
No colóquio esteve também presente Edmundo Pedro, histórico resistente contra o fascismo, preso durante 10 anos no Tarrafal, que fez uma intervenção salientando a importância da memória no combate político.