Ananias, o crédulo

porLuís Leiria

15 de dezembro 2011 - 0:00
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Crónica em que se apresenta um personagem que acredita piamente em tudo o que diz Passos Coelho.

Ananias acredita em tudo o que diz o primeiro-ministro Passos Coelho. Tudo mesmo. Todas as palavras. Antes, confiava em todas as afirmações de José Sócrates. Também cria piamente em tudo o que diziam Santana Lopes, Durão Barroso e António Guterres.

Aos que dizem que é um crédulo, Ananias responde que apenas tem espírito patriótico. “Se todos os portugueses fizessem como eu”, costuma dizer, “o país estava muito melhor”. A confiança é a alma do negócio, explica Ananias, que acredita nos mecanismos do mercado. E o mercado ensina que a confiança é a condição número 1 para o crescimento e para a felicidade. Por isso, Ananias confia sempre no primeiro-ministro. Seja ele qual for.

Ananias acreditou que Passos Coelho não ia aumentar impostos e também acreditou que ele não tinha outra hipótese senão aumentá-los. Ananias acreditou quando Passos Coelho disse que era um disparate insinuar que ele ia acabar com o subsídio de férias e também quando ele disse que não tinha alternativa senão tirar não só o subsídio de férias como o de Natal aos funcionários públicos e pensionistas; e ficou cheio de pena de não ser funcionário público nem pensionista para fazer mais esse sacrifício com toda a confiança.

Ananias também acreditou que é uma medida sábia obrigar todos os portugueses a trabalhar de graça mais meia hora por dia, e queria até oferecer-se para trabalhar uma hora de graça por dia. O problema é que está desempregado e por isso não consegue trabalhar de forma alguma: nem remuneradamente nem de graça; nem meia hora, nem uma hora, nem hora nenhuma.

Ananias ficou indignado no dia da greve geral porque acha que é uma grande falta de confiança fazer greve. Como confia piamente no que diz todo o governo, incluindo os ministros Miguel Relvas e Álvaro Santos Pereira, resolveu ir ao Ministério da Economia oferecer-se para furar a greve. É que se há um ministro em quem ele tem particular deleite de acreditar é o dr. Pereira. Teve de ir a pé, imprecando contra a falta de confiança dos trabalhadores dos transportes e, quando chegou à porta do Ministério da Economia, encontrou-a fechada e não viu ninguém que lhe pudesse dizer onde estava o ministro a trabalhar.

Mas a tristeza que sentiu naquele dia foi logo superada quando ouviu Passos Coelho negar que vá haver mais um aumento de impostos. Ficou contentíssimo em ter mais uma forma de exercer a sua credulidade.

Ananias acredita piamente que a crise é provocada por os portugueses se terem endividado acima das suas posses. Ele, por exemplo, endividou-se para comprar o T-0 onde vive. Na altura, acreditou quando lhe disseram que os juros eram baixos e quando o banco lhe demonstrou por A+B que pedir um empréstimo era essencial para o crescimento da economia. Hoje, acredita que entrou involuntariamente numa classe de parasitas que andaram a gastar o que não tinham, à custa do dinheiro que chegava ao país vindo da Alemanha e da França. É que Ananias também acredita piamente no que diz a sra. Merkel. Por isso, quis vender a motorizada que comprou a crédito há dez anos e que já está paga, para ajudar a reduzir o défice. Mas desistiu porque descobriu que a mota já não valia nada.

Ananias também é a favor que os bancos recebam do estado português todas as verbas que quiserem. Porque acredita no primeiro-ministro quando este diz que os bancos são essenciais para a economia. Sem sistema bancário forte não há crescimento económico forte, costuma repetir, parafraseando Miguel Relvas, sempre que fica a saber de mais uns milhares de milhões que foram entregues à banca.

Há, porém, uma coisa que preocupa muito Ananias. Ele acha muito justa a felixibilização dos horários de trabalho, de forma a que no próprio dia o patrão possa forçar o empregado a trabalhar mais duas ou três horas, se isso for necessário à boa saúde da empresa. Mas tem medo que os patrões aproveitem o ensejo e queiram aumentar os horários de trabalho para 60 horas. É que Ananias é crédulo, mas não é inculto. Ele gosta muito de história e não se esquece de ter lido que uma das causas da queda do Império Romano foi a falta de produtividade da escravatura. As regras do mercado – nas quais Ananias, não esqueçamos, acredita piamente – dizem que tem de haver incentivos, nem que sejam mínimos, para haver produtividade. Por isso a escravatura não funciona numa economia de mercado. Isso é o que Ananias acha, e não mudará de ideias a menos que Passos Coelho diga o contrário.

Com a devida vénia aos personagens “Eremildo, o idiota”, do jornalista e escritor brasileiro Elio Gaspari, e a “Velhinha de Taubaté”, do também escritor e cronista brasileiro Luiz Fernando Veríssimo.

Luís Leiria
Sobre o/a autor(a)

Luís Leiria

Jornalista do Esquerda.net
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