Esta é uma crise europeia materializada na Grécia ou em Portugal e não uma crise grega ou portuguesa com repercussões na Europa toda. O contraste entre estes dois entendimentos é também o contraste entre os fautores da crise à direita e os que a combatem à esquerda.
A direita de sempre – e os social-democratas que se lhe juntam – abordam a crise fomentando a Europa a mais no plano intergovernamental. Intergovernamental de quem manda e intergovernamental de quem é submetido. Essa é a Europa do directório franco-alemão, que impõe planos nacionais de austeridade e privatização aos países periféricos. Essa Europa a mais deixa deliberadamente na sombra uma Europa a menos – a europa social da coesão através dos direitos sociais.
Por isso, este é um momento de teste decisivo para quem opõe à desconstrução europeia em curso às mãos do poder financeiro um europeísmo de esquerda. No presente contexto, a afirmação de um europeísmo de esquerda passa por três linhas de pressão política fundamentais.
A primeira é a da desdiferenciação entre as periferias – à estratégia do cordão sanitário de todos em torno de cada economia nacional alvo de ataque especulativo, o europeísmo de esquerda contrapõe a urgência de uma frente unida das periferias contra a desgovernação liberal.
A segunda é a da comunitarização de respostas à ofensiva austero-privatizadora – à Europa a menos de um euro sem regras nem instrumentos que, em vez de esmagarem os países mais pobres, compense as assimetrias de robustez económica entre os Estados membros, o europeísmo de esquerda contrapõe a mutualização das dívidas, a emissão de títulos de dívida europeia que desarmem a especulação e o nivelamento comunitário “por cima” dos direitos sociais.
Finalmente, a terceira linha de pressão política é a do permanente combate por mais democracia – à informalização das decisões que contam (estratégia obviamente implementada ao sabor dos interesses do poder financeiro e dos Estados seus principais aliados) o europeísmo de esquerda contrapõe a devolução do poder de decidir a instâncias democraticamente legitimadas. Com a consciência de que a legitimação democrática não é um dado de partida mas um processo que se faz de disputa política simultaneamente interior e exterior às instâncias de decisão.
A única alternativa à governação austero-privatizadora é europeísta porque é de esquerda. A tentação nostálgica de regresso a uma escala nacional de decisão mitifica essa escala e atribui-lhe potencialidades que ele não tem nem vai ter. Uma esquerda de coerência e de coragem não sonha com esse mito para não ter que ir à luta, inteligente e tenaz, lá onde se muda a vida das pessoas. É nessa esquerda que dá gosto estar.