Há momentos – poucos e muito espaçados na História – em que a complexidade das coisas aparece reduzida a uma simplicidade desconcertante. Assim sucede com a iniciativa diplomática da Autoridade Palestiniana junto das Nações Unidas para um reconhecimento da Palestina como membro de pleno direito da organização. Porque, se nada é simples no Médio Oriente, o mundo sabe que a Palestina é o nome simples para onde converge toda a conflitualidade daquela região e das suas refracções em outras zonas do planeta. E, de repente, sem simplismos mas com o desconcerto das coisas realmente simples, o mundo é confrontado com uma decisão de sim ou de não: chegou ou não o momento de reconhecer a Palestina como um Estado soberano com todos os direitos a isso inerentes? Chegou ou não o momento de darmos em conjunto esse passo e de fazermos com que a História dê, ela própria, um passo de grande alcance?
Ninguém pode escapar a uma resposta clara de sim ou de não e agora. É por isso que o posicionamento do PS na Assembleia da República de obstar ao reconhecimento propondo, em alternativa, o louvor de negociações que estão formalmente paradas há meses e que estagnaram politicamente há anos demais, só para não ter que dizer se, sim ou não, apoia agora o reconhecimento da Palestina como Estado é tão revelador de até onde pode ir o contorcionismo dos princípios às mãos de conveniências tácticas. Há um ano, o PS ficou literalmente entalado pela proposta do Bloco de Esquerda de reconhecimento do Estado da Palestina. E, numa pirueta politicamente grotesca, apresentou à pressa uma proposta alternativa de saudação da posição da União Europeia neste processo e incitando a que no fim de 2011 se realizasse aquele reconhecimento em escala europeia. O prazo dessa fuga para a frente está a expirar. O que então era óbvio – a demissão da UE das suas responsabilidades à luz do Direito Internacional e da História – tornou-se, um ano volvido, ainda mais escandaloso. E o que faz o PS? Volta a propor o louvor das negociações e da UE.
A Palestina e os direitos fundamentais dos seus homens e das suas mulheres são um teste muito concreto às convicções e à coerência de cada força política. A simplicidade da decisão que somos chamados a assumir tem esse condão: não permite álibis de nenhum tipo. As indecisões são decisões num sentido contra outro. O PS sabe disso mas finge não saber. Os 64 anos de indignidade histórica na Palestina tornam esse fingimento insuportável.